Todos os dias, na terra da Linkedinlândia vemos o mesmo espetáculo: profissionais indignados porque a empresa decidiu exigir trabalho presencial.
Os textos parecem ter sido escritos por revolucionários acorrentados a uma mina de carvão. Falam em “retrocesso”, “mentalidade arcaica”, “falta de confiança” e “desrespeito à qualidade de vida”. Alguns descrevem a obrigação de ir ao escritório como se tivessem sido convocados para uma guerra.
O argumento preferido é conhecido:
“Não faz sentido sair de casa para ficar na frente de um computador.”
Nesse caso, a solução é muito simples: peça demissão.Não faça textão. Não grave vídeo emocionado. Não publique manifesto sobre a decadência do capitalismo corporativo. Não tente transformar sua preferência pessoal em uma verdade universal. Peça demissão e procure uma empresa que ofereça trabalho remoto.
Se o profissional acredita que sua produtividade é maior em casa, que o deslocamento prejudica sua saúde e que o trabalho presencial é incompatível com seu estilo de vida, ele tem todo o direito de procurar outro emprego.
O que ele não tem é o direito de aceitar trabalhar em uma empresa e depois agir como se fosse proprietário dela, definindo sozinho quando, onde e de que forma o trabalho deve acontecer.
A empresa pode estar errada, mas continua sendo a empresa
É possível que algumas empresas estejam cometendo um erro ao determinar o retorno ao escritório. Algumas perderão bons profissionais. Outras terão aumento de custos, queda de produtividade e dificuldade para contratar, isso faz parte do jogo.
Quem assume o risco empresarial tem o direito de tomar decisões ruins e sofrer as consequências delas.
Se a empresa insiste em um modelo que afasta talentos, o mercado dará a resposta. Os melhores profissionais irão embora, as vagas ficarão abertas e os resultados poderão piorar. Não é necessário organizar uma revolução no LinkedIn. Basta deixar a realidade econômica trabalhar.
Mas há uma diferença gigantesca entre dizer “não concordo com essa política” e afirmar que a empresa não pode adotá-la, ela pode. Da mesma forma, o profissional pode recusar. Isso se chama liberdade contratual, não opressão.
A relação de trabalho deveria ser compreendida com uma honestidade quase infantil: a empresa apresenta as condições, o profissional avalia, e ambos decidem se existe interesse na relação.
Se as condições mudarem e deixarem de ser aceitáveis, uma das partes pode encerrar o vínculo conforme a legislação e o contrato. O restante é teatro.
A empresa não foi criada para organizar a vida do funcionário
Empresa não é extensão da sala de estar. Não é associação recreativa, grupo terapêutico ou instituição fundada para realizar os sonhos particulares de cada empregado.
Uma empresa existe para entregar valor, atender clientes, competir, sobreviver, crescer e gerar resultados.
Isso não significa que ela possa humilhar pessoas, violar direitos, pagar salários incorretamente ou ignorar a legislação. Ambiente tóxico, assédio, discriminação e exploração precisam ser denunciados e combatidos. Mas exigir presença física não é, por si só, assédio e nem é nenhum absurdo, é apenas uma decisão em muitos casos e necessidade em muito mais ainda situações.
Discordar do modelo de trabalho não transforma a empresa em uma organização medieval.
Há atividades que funcionam perfeitamente a distância. Há outras que funcionam melhor presencialmente. Existem equipes que produzem mais remotamente e equipes que se desintegram em reuniões virtuais, mensagens ignoradas e câmeras permanentemente desligadas.
A decisão pode depender da cultura, da liderança, do tipo de atividade, da maturidade da equipe, da segurança das informações, da necessidade de integração e até da preferência dos clientes.
O mundo real costuma ser mais complexo do que uma publicação com fundo colorido e três hashtags.
“Eu entrego resultado” virou a frase mais conveniente da década
Praticamente todo profissional contrário ao trabalho presencial afirma que “entrega resultado”. Curiosamente, poucos apresentam números.
Dizem que trabalham melhor em casa, mas não mostram indicadores. Dizem que são mais produtivos, mas confundem ausência de supervisão com eficiência. Dizem que economizam tempo, como se o tempo economizado no deslocamento fosse automaticamente convertido em valor para a empresa.
Em muitos casos, o trabalho remoto realmente funciona. Em outros, funciona maravilhosamente para o funcionário e pessimamente para a organização.O profissional dorme mais, economiza combustível, almoça em casa, resolve questões pessoais e termina o dia mais confortável. Tudo isso é legítimo e desejável.
Mas benefício pessoal não é sinônimo de benefício empresarial.
Se os dois lados ganham, excelente. Se apenas um lado ganha, existe um problema que precisa ser discutido.
O que não existe é um direito divino ao trabalho remoto só porque alguém comprou uma cadeira ergonômica, instalou uma luminária bonita e descobriu que prefere participar de reuniões usando chinelos.
O LinkedIn criou uma aristocracia de escritório
Existe ainda uma arrogância social difícil de ignorar. Enquanto alguns profissionais tratam o deslocamento até o escritório como uma violência intolerável, milhões de pessoas acordam de madrugada para dirigir ônibus, abrir hospitais, limpar ruas, operar máquinas, atender lojas, cozinhar, transportar mercadorias, construir prédios, cuidar de idosos e manter cidades funcionando.
Essas pessoas não podem fabricar produtos pelo Zoom, atender pacientes pelo Slack ou consertar uma rede elétrica sentadas no sofá.
É curioso observar uma parcela privilegiada do mercado transformar conforto em princípio moral.
Não querem apenas trabalhar remotamente. Querem que sua preferência seja reconhecida como sinal de evolução, inteligência e modernidade. Quem discorda é chamado de ultrapassado.
É a velha arrogância com uma webcam de alta definição.
Trabalho remoto não torna ninguém mais moderno. Trabalho presencial não torna ninguém mais comprometido. O que importa é a natureza do trabalho, o resultado esperado e o acordo estabelecido entre as partes.
Quem pode se dar ao luxo de trabalhar remotamente?
O quadro abaixo considera quantos profissionais, em cada grupo de 100 trabalhadores, precisam atuar presencialmente e quantos ocupam funções potencialmente realizáveis a distância:
O Ipea estimou que aproximadamente 24,1% dos trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com potencial para o trabalho remoto. Isso significa que cerca de três em cada quatro trabalhadores dependem da presença física para exercer suas atividades.
É importante observar que esses 24% representam o potencial máximo de trabalho remoto, e não o número de pessoas que necessariamente devem trabalhar dessa maneira. Mesmo entre elas, existem reuniões, atendimentos, operações, treinamentos e decisões que podem exigir presença.
A realidade, portanto, é bastante clara:
Para cada profissional que pode discutir a conveniência de trabalhar de casa, existem aproximadamente três que precisam sair de casa para que hospitais, transportes, lojas, fábricas, obras, serviços e cidades continuem funcionando.O emprego perfeito talvez não exista, mas a porta existe
O mercado de trabalho não é um catálogo no qual cada pessoa seleciona salário alto, benefícios generosos, horário flexível, liderança inspiradora, trabalho remoto, estabilidade absoluta e nenhuma cobrança inconveniente.
Escolhas produzem renúncias.
Quem prioriza trabalho remoto talvez precise aceitar um salário menor, abrir mão de determinada empresa ou disputar vagas mais concorridas. Quem deseja crescer em uma organização presencial talvez precise enfrentar trânsito, transporte público e horários menos confortáveis. Vida adulta é isso. Você identifica suas prioridades, calcula os custos e toma decisões.
O que não combina com a vida adulta é permanecer voluntariamente em uma empresa, receber o salário todos os meses e usar as redes sociais para descrever o empregador como um inimigo da humanidade porque ele exige aquilo que estava previsto na relação de trabalho.
Se a empresa mudou as regras depois da contratação, negocie. Se não houver acordo, procure outra oportunidade. Se houver violação contratual ou legal, busque seus direitos.
Mas, se o problema é simplesmente que a política da empresa não combina mais com a sua preferência, tenha coragem de fazer aquilo que recomenda aos outros: mude.
E quando a pessoa briga por home office, mas não tem estrutura para trabalhar em casa?
Há também uma diferença enorme entre desejar o home office e possuir condições reais para trabalhar dessa forma. Milhões de pessoas vivem em residências pequenas, compartilhadas com outros adultos, crianças e familiares, sem um cômodo exclusivo, mobiliário ergonômico, isolamento acústico, conexão estável ou privacidade mínima. Muitas acabam trabalhando na mesa da cozinha, no sofá ou dentro do quarto, disputando espaço e silêncio com a rotina doméstica. Nessas circunstâncias, o home office, apresentado como sinônimo de liberdade e qualidade de vida, pode se transformar em improvisação permanente, perda de produtividade, desgaste físico e aumento dos conflitos familiares. Além disso, quando a empresa não fornece estrutura adequada, parte considerável dos custos do trabalho, energia elétrica, internet, equipamentos, climatização e manutenção, é silenciosamente transferida ao próprio funcionário.
Portanto, trabalhar de casa não é necessariamente um privilégio nem uma solução universal. Para muita gente, um ambiente profissional organizado, seguro e adequado continua sendo uma condição essencial para trabalhar com dignidade.
Liberdade vale para os dois lados
Defender a liberdade do trabalhador significa reconhecer seu direito de escolher onde deseja trabalhar. Defender a liberdade da empresa significa reconhecer seu direito de definir como pretende operar, dentro da lei.
Não existe liberdade verdadeira quando apenas um lado pode escolher e o outro é obrigado a obedecer às preferências individuais de cada profissional.Talvez a empresa esteja errada. Talvez você esteja errado. Talvez os dois apenas tenham necessidades incompatíveis. Nem toda incompatibilidade precisa de vilão. Quando a empresa é incompatível com suas crenças ou necessidades, é simples: Demita-se e vá trabalhar em outro lugar.
Portanto, se o trabalho presencial é inaceitável para você, aja de acordo com sua convicção. Atualize o currículo, procure vagas remotas, participe de processos seletivos e assuma os riscos da própria escolha.
O mercado não lhe deve a empresa ideal. A empresa atual também não é obrigada a reorganizar sua operação para acomodar sua rotina.
É muito fácil exigir que o empregador assuma todo o custo daquilo que você considera qualidade de vida. A convicção começa a ser testada quando chega a hora de você assumir o custo da própria decisão.
Quer trabalho remoto? Ótimo. Procure uma empresa remota. E, enquanto não encontrar, escolha entre cumprir as condições do emprego que aceitou ou sair dele.
O que não dá é querer salário de empregado, autonomia de proprietário, conforto de freelancer, estabilidade de servidor público e liberdade de alguém que não precisa prestar contas a ninguém. Isso não é uma nova relação de trabalho. É apenas uma lista infantil de desejos publicada no LinkedIn.
A conta da indignação
Enquanto alguns transformam o trabalho presencial em uma espécie de tragédia humanitária e usam o LinkedIn como divã público contra seus empregadores, milhões de pessoas gostariam apenas de ter um emprego para onde ir. Não estão discutindo se a cadeira do escritório é ergonômica, se a reunião poderia ter sido um e-mail ou se o deslocamento compromete sua “qualidade de vida”.
Estão tentando descobrir como pagar o aluguel, comprar comida e impedir que a eletricidade seja cortada.Existe uma diferença brutal entre não gostar das condições de um emprego e não ter emprego algum. Parte de quem reclama tão confortavelmente pode fazer isso porque sempre existe alguém sustentando a retaguarda, pagando parte das contas, garantindo a moradia ou impedindo que a geladeira fique vazia. É muito fácil declarar guerra ao trabalho presencial quando outra pessoa está financiando a revolução.
Do outro lado estão aqueles que não contam com rede de proteção, herança, cônjuge bancando as despesas ou família pronta para absorver suas escolhas. São pessoas para quem o salário não representa realização pessoal, propósito ou pertencimento corporativo. Representa arroz, feijão, aluguel, remédio, transporte e dignidade. Muitas delas estão desempregadas e aceitariam imediatamente o trabalho que tantos tratam como uma ofensa pessoal, inclusive acordando cedo, enfrentando trânsito e trabalhando dentro das instalações de quem lhes paga.
O mais irônico é que, frequentemente, quem sustenta a casa e paga as contas de quem reclama no LinkedIn pertence exatamente ao mundo real que o reclamante parece desprezar. É o pai, a mãe, o marido, a esposa ou algum familiar que não pode se dar ao luxo de fazer discursos sobre liberdade geográfica, porque precisa trabalhar onde o trabalho existe. Sabe o peso da responsabilidade de manter outras pessoas de sua familia sobrevivendo.
Ninguém é obrigado a permanecer em uma empresa cujas regras considera inaceitáveis. Peça demissão. Procure outra oportunidade. Abra seu próprio negócio. Assuma os riscos, pague os impostos, garanta os salários e permita que todos trabalhem de onde quiserem. O que não dá é exigir salário, estabilidade e benefícios, enquanto se age como se cumprir as condições conhecidas no momento da contratação fosse uma violência intolerável.
Antes de publicar mais uma indignação sobre a crueldade de precisar comparecer ao local de trabalho, talvez seja útil olhar para quem está na fila do desemprego.
Há milhões de pessoas que trocariam, sem hesitar, a liberdade de reclamar pela oportunidade de trabalhar. Para quem tem a mesa vazia e as contas vencidas, o escritório não é uma prisão. É uma possibilidade de sobrevivência.
No fim, certos discursos não revelam consciência profissional, revelam apenas o privilégio de quem pode desprezar a oportunidade que outra pessoa implora para ter.