Ensaio · Economia da atenção
O banquete da
informação inútil
Nunca tivemos acesso a tanto conteúdo e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão mal informados. Uma anatomia do cardápio que domina as telas brasileiras.
Existe um paradoxo brutal na era da informação: nunca tivemos acesso a tanto conteúdo e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão mal informados.
O brasileiro médio passa mais de 9 horas por dia conectado a alguma tela, um dos índices mais altos do planeta, segundo o relatório Digital 2024 da We Are Social. E o que ele encontra nesse oceano de dados? Em sua maioria, uma espuma espessa de irrelevância.
A lógica das plataformas digitais não é a da verdade, nem a do bem público, é a da atenção. E a atenção humana, como qualquer recurso escasso, tem seu preço e seu predador natural:
O conteúdo que ativa o circuito de recompensa do cérebro sem exigir nenhum esforço cognitivo.
Pesquisas do Reuters Institute for the Study of Journalism apontam que o Brasil está entre os países com maior taxa de consumo de conteúdo de entretenimento disfarçado de notícia. Estudos de análise de mídia estimam que, nos principais portais generalistas brasileiros, entre 55% e 65% das matérias mais acessadas a cada semana pertencem às categorias de entretenimento leve, fofoca ou conteúdo de impacto emocional imediato sem relevância informativa real.
Nas redes sociais, o quadro é ainda mais pronunciado. Análises de comportamento de feed indicam que aproximadamente 72% do conteúdo consumido pelos usuários brasileiros nas redes sociais mais conhecidas se enquadra no que pesquisadores chamam de "conteúdo de baixa carga cognitiva", vídeos curtos, memes, danças, trends e controvérsias passageiras. Apenas 28% do tempo de consumo é gasto com conteúdo que exige atenção sustentada ou transmite informação verificável e útil.
No YouTube, a proporção melhora ligeiramente, mas ainda pesa para o lado da superficialidade: cerca de 66% do tempo de visualização no Brasil vai para vídeos de entretenimento puro, reações, vlogs de rotina e conteúdo de "drama" entre criadores.
DiagnósticoPor que isso acontece, e por que é tão difícil parar?
A resposta fácil culpa o usuário, a resposta honesta culpa o sistema inteiro.
Os algoritmos das plataformas foram otimizados para maximizar o tempo de tela, não o bem-estar ou o nível informacional do usuário. Conteúdo que gera reação emocional rápida, indignação, curiosidade superficial, inveja, risada, performa melhor e é amplificado. Conteúdo que exige tempo, contexto e esforço para ser processado tende a ser enterrado.
Os portais de notícias, pressionados pela queda da receita publicitária e pela migração dos leitores para o social, aprenderam a jogar o mesmo jogo. O título sensacionalista, a foto reveladora, a polêmica do dia, é o que converte em pageview, e é o que ainda paga as contas.
O resultado é um ambiente informacional que funciona como um fast food cognitivo: acessível, abundante, saboroso no imediato e devastador no longo prazo. Uma população que consome esse cardápio exclusivamente chega às urnas sem saber o que os candidatos propõem, ao médico sem entender seu diagnóstico, ao mercado de trabalho sem habilidade de análise crítica, enfim toda sociedade é impactada.
A pergunta que raramente é feita é: o que se perde enquanto se assiste ao vídeo da celebridade na praia? Não apenas o tempo em si, mas a capacidade de sustentar atenção em algo complexo, de tolerar a ambiguidade, de acompanhar um argumento longo até sua conclusão.
Pesquisadores da atenção documentam um declínio consistente na capacidade de leitura profunda entre adultos jovens em países de alta exposição digital. No Brasil, onde o ensino básico já produz resultados insatisfatórios em compreensão textual, essa sobreposição de fatores cria uma vulnerabilidade de proporções civilizacionais.
Não é exagero dizer que uma democracia com eleitorado cronicamente mal informado funciona de forma fundamentalmente diferente de uma democracia com cidadãos capazes de avaliar evidências e comparar propostas.
O conteúdo inútil não é apenas irrelevante, ele ocupa o espaço onde a consciência crítica poderia existir.
SaídaExiste saída?
Sim. Mas ela é individual antes de ser sistêmica.
Curadoria ativa do próprio consumo, seguir fontes verificadas, desinstalar apps que só oferecem ruído, criar o hábito de buscar a notícia em vez de esperá-la no feed, já produz diferença mensurável na qualidade informacional de uma pessoa. Algumas plataformas, pressionadas por reguladores europeus, começaram a oferecer ferramentas de controle de algoritmo que o Brasil ainda não exigiu formalmente.
No plano coletivo, a discussão sobre regulação de plataformas digitais ganhou força no Congresso recentemente, embora ainda sem consenso sobre os limites entre regulação e censura. O que parece certo é que deixar a curadoria da informação pública inteiramente nas mãos de algoritmos privados otimizados para engajamento tem um custo social que nenhuma democracia pode se dar ao luxo de ignorar indefinidamente.
O banquete do nada continuará sendo servido enquanto houver fome por ele. A questão é se o Brasil vai, eventualmente, perguntar o que mais poderia estar comendo.
Este artigo utiliza estimativas baseadas em dados do Reuters Institute Digital News Report, We Are Social Digital 2024, IBOPE/Kantar Media e pesquisas acadêmicas sobre comportamento de consumo de mídia no Brasil.