Outro vi em um post no Linkedin, alguém falando com o objetivo de oferecer uma lição de eficiência aos departamentos de Recursos Humanos:
“O Papa foi escolhido em 2 dias. Seu processo seletivo não precisa de 5 etapas de entrevista. Simples assim.”A frase parece inteligente porque é curta, irônica e fácil de compartilhar. O problema é que ela também é historicamente desonesta e intelectualmente preguiçosa, e claramente escrita por alguém que tem insuficiência de conhecimentos.
O papa não é escolhido por meio de um processo seletivo convencional, não envia currículo, não responde a um anúncio de vaga e não comparece ao Vaticano para uma dinâmica em grupo. Mais importante ainda, os dois dias normalmente mencionados correspondem apenas à etapa final e secreta de votação, e nem sempre são "apenas" dois dias.
É como afirmar que um edifício foi construído em uma tarde porque foi nesse período que entregaram as chaves.
O conclave é somente a parte final
Quando um papa morre ou renuncia, inicia-se o período chamado Sé Vacante. Durante esse intervalo, o Colégio dos Cardeais assume apenas a administração dos assuntos ordinários e inadiáveis da Igreja, sem poder exercer as atribuições reservadas ao novo pontífice.
No caso de morte, existem a confirmação formal do falecimento, a lacração dos aposentos pontifícios, as cerimônias fúnebres, o sepultamento e os nove dias de celebrações conhecidos como Novemdiales. Paralelamente, cardeais de todo o mundo viajam para Roma e participam das Congregações Gerais.
Essas reuniões não são simples formalidades. Nelas, os cardeais analisam a situação da Igreja, discutem problemas administrativos, pastorais, financeiros, diplomáticos e doutrinários, avaliam os desafios internacionais e refletem sobre o perfil necessário ao próximo pontífice.
Portanto, muito antes de a primeira cédula ser depositada na urna, já existe um período de observação, diálogo, avaliação e formação de consenso.
A Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, que regulamenta a eleição papal, determina normalmente uma espera de quinze dias após o início da Sé Vacante, permitindo que o conclave seja adiado até o vigésimo dia por motivos graves. A mesma norma estabelece quem pode votar, como os eleitores devem permanecer isolados e como cada escrutínio deve ser realizado.
Chamar apenas os dias de votação de “processo seletivo” significa apagar deliberadamente tudo o que aconteceu antes.
Os candidatos não são desconhecidos recrutados pela internet
Outro erro da comparação é imaginar os cardeais como recrutadores abrindo currículos de candidatos que nunca viram.
Na prática, os nomes considerados para o papado possuem décadas de trajetória dentro da Igreja. Normalmente passaram pelo sacerdócio, episcopado, administração de dioceses, conferências episcopais, missões internacionais, universidades, tribunais e organismos da Cúria Romana.
Antes de alguém se tornar cardeal, sua vida religiosa e administrativa já foi observada durante muitos anos. Suas posições doutrinárias, sua capacidade de liderança, seu histórico pastoral, sua reputação, seus relacionamentos institucionais e sua maneira de enfrentar crises não surgem repentinamente na Capela Sistina.
O conclave não começa do zero. Ele representa a decisão final de um processo de formação, convivência, observação e amadurecimento que pode durar décadas.
É justamente por isso que não existem “cinco entrevistas”. Os eleitores não estão tentando descobrir em duas horas quem são aquelas pessoas. Estão escolhendo entre homens que ocupam as posições mais elevadas da estrutura eclesiástica e cujas trajetórias são amplamente conhecidas ou investigadas.
Como começa o conclave
No dia determinado, os cardeais participam da Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, celebrada publicamente para pedir orientação na escolha do novo pontífice.
Depois, seguem em procissão solene até a Capela Sistina, cantando e invocando a assistência do Espírito Santo. Dentro da capela, cada cardeal presta um juramento individual sobre os Evangelhos.
Eles se comprometem a cumprir rigorosamente as regras da eleição, preservar o segredo, rejeitar interferências externas e, caso sejam eleitos, desempenhar fielmente o ministério petrino.
Quando todos terminam o juramento, o Mestre das Celebrações Litúrgicas pronuncia a expressão latina Extra omnes, que significa “todos para fora”. Quem não está autorizado a participar deixa a Capela Sistina.
Os acessos são fechados. Os cardeais ficam impedidos de utilizar telefone, internet, televisão, rádio, jornais ou qualquer outro meio de comunicação externa. A Casa Santa Marta, onde ficam hospedados, e os trajetos até a Capela Sistina também ficam submetidos a rígido controle.
Esse isolamento existe para proteger a liberdade dos eleitores contra pressões políticas, econômicas, midiáticas ou diplomáticas.
Como funciona cada votação
O processo de votação é minuciosamente regulamentado.
Primeiro, são sorteados três escrutinadores, responsáveis pela contagem dos votos, três infirmarii, encarregados de recolher os votos dos cardeais doentes, e três revisores, que conferem todo o trabalho realizado.
Cada eleitor recebe uma cédula retangular com a expressão latina Eligo in Summum Pontificem, ou “Elejo como Sumo Pontífice”. O cardeal escreve o nome escolhido com uma grafia que procure não identificá-lo, dobra a cédula e caminha até o altar.
Antes de depositar o voto, declara que escolheu aquele que, diante de Deus, considera que deve ser eleito.
Depois que todos votam, a urna é agitada para misturar as cédulas. Elas são contadas antes de serem abertas. Se a quantidade não corresponder ao número de eleitores, todas são queimadas e a votação precisa ser refeita.
Estando o número correto, os três escrutinadores verificam cada voto. O último anuncia o nome em voz alta e perfura as cédulas com uma agulha, unindo-as por um fio. Em seguida, os revisores conferem os votos e as anotações.
Para que alguém seja eleito, precisa receber pelo menos dois terços dos votos. Em 2025, com 133 cardeais participantes, eram necessários 89 votos.
Normalmente ocorre uma votação na tarde do primeiro dia. Nos dias seguintes podem acontecer quatro votações diárias, duas pela manhã e duas à tarde. Se não houver acordo após determinados ciclos, o processo prevê pausas para oração, reflexão, diálogo e exortações espirituais.
Se nenhuma eleição ocorrer, as cédulas são queimadas e produtos químicos produzem a fumaça preta. Quando alguém alcança a maioria necessária, a fumaça branca anuncia ao mundo que existe um novo papa.
A eleição ainda não termina com a contagem
Depois de alcançar os votos necessários, o eleito precisa responder a duas perguntas fundamentais.
A primeira é se aceita sua eleição canônica como Sumo Pontífice. A segunda é por qual nome deseja ser chamado.
Aceita a eleição, ele passa a exercer imediatamente o pontificado, desde que já seja bispo. Depois, dirige-se ao pequeno aposento próximo à Capela Sistina, tradicionalmente chamado de Sala das Lágrimas, onde veste pela primeira vez as roupas brancas papais.
Os cardeais prestam homenagem ao novo pontífice e cantam o Te Deum. Somente depois disso o cardeal protodiácono aparece na sacada central da Basílica de São Pedro e pronuncia o tradicional anúncio:
Então o novo papa aparece diante da multidão e concede sua primeira bênção.
Como foram escolhidos os cinco últimos papas
Os cinco últimos conclaves mostram que a rapidez da votação não significa ausência de processo.
Leão XIV, 2025
O papa Francisco morreu em 21 de abril de 2025. O conclave somente começou em 7 de maio, depois dos funerais, das celebrações dos Novemdiales, da chegada dos cardeais e das Congregações Gerais.
Robert Francis Prevost foi eleito no dia 8 de maio, na quarta votação, e adotou o nome Leão XIV. Portanto, foram dois dias de conclave, mas dezessete dias entre a morte de Francisco e a eleição do sucessor. Além disso, Prevost carregava décadas de experiência como missionário, bispo, superior da Ordem de Santo Agostinho e prefeito do Dicastério para os Bispos.
Francisco, 2013
Bento XVI anunciou sua renúncia em 11 de fevereiro de 2013, com efeito a partir de 28 de fevereiro. Os cardeais tiveram conhecimento antecipado da abertura da Sé Vacante e puderam se preparar para a sucessão.
O conclave começou em 12 de março com 115 eleitores. Jorge Mario Bergoglio foi eleito no dia seguinte, na quinta votação, escolhendo o nome Francisco. A Sala de Imprensa da Santa Sé registrou o juramento dos eleitores, a primeira fumaça preta e a fumaça branca das 19h06 do dia 13.
Bento XVI, 2005
João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005. Seu funeral reuniu líderes e fiéis de todo o mundo, enquanto os cardeais realizaram as reuniões preparatórias.
O conclave começou em 18 de abril. Joseph Ratzinger foi eleito no dia 19, na quarta votação, adotando o nome Bento XVI. Entre a morte do papa e a eleição do sucessor transcorreram dezessete dias. O Vaticano confirma que a escolha ocorreu no quarto escrutínio.
João Paulo II, 1978
João Paulo I morreu inesperadamente em 28 de setembro de 1978, depois de apenas 33 dias de pontificado. Os mesmos cardeais que haviam se reunido poucas semanas antes precisaram retornar a Roma.
O segundo conclave de 1978 começou em 14 de outubro e terminou no dia 16, depois de oito votações. O cardeal polonês Karol Wojtyła foi eleito João Paulo II, tornando-se o primeiro papa não italiano em mais de quatro séculos. Foram três dias dentro da Capela Sistina, mas dezoito dias desde a morte do antecessor.
João Paulo I, 1978
Paulo VI morreu em 6 de agosto de 1978. O conclave começou somente em 25 de agosto, dezenove dias depois, com 111 cardeais eleitores.
Albino Luciani foi eleito no dia 26, na quarta votação, e escolheu o nome João Paulo I em homenagem a João XXIII e Paulo VI. Mais uma vez, os dois dias citados representam apenas o período de votação, não todo o processo de sucessão.
A comparação fracassa porque mede coisas diferentes
Uma empresa pode, evidentemente, exagerar em seus processos seletivos. Cinco entrevistas repetitivas, testes sem relação com a função, apresentações gratuitas, dinâmicas constrangedoras e semanas de silêncio podem revelar desorganização, insegurança gerencial ou falta de respeito pelo candidato. Esse é um debate legítimo.
O papa não foi encontrado, analisado, testado e escolhido em dois dias. Em dois dias ocorreu a votação conclusiva entre pessoas que já haviam passado por décadas de formação, avaliação, convivência institucional e exercício de funções de enorme responsabilidade.
Se uma empresa tivesse acompanhado durante trinta ou quarenta anos a trajetória de todos os candidatos, conhecesse pessoalmente seus resultados, tivesse acesso ao histórico completo de cada um e reunisse os principais dirigentes em isolamento até alcançar uma maioria de dois terços, talvez também não precisasse fazer cinco entrevistas. Mas não é assim que a maioria das contratações acontece.
A discussão correta não deveria ser sobre o número mágico de etapas. Deveria ser sobre a qualidade, a finalidade e a eficiência de cada uma delas. Uma entrevista bem estruturada pode ser suficiente para algumas funções. Para outras, análise técnica, verificação de referências, avaliação comportamental e conversa com diferentes gestores podem ser indispensáveis.
Processo curto não significa processo inteligente. Processo longo também não significa processo rigoroso.
O que importa é se cada etapa produz informação relevante para a decisão.
O post original não oferece uma lição de gestão. Oferece apenas uma comparação espirituosa, superficial e historicamente errada. O conclave pode terminar em dois dias justamente porque a decisão começou muito antes de suas portas serem fechadas. Simples assim.
Referências bibliográficas
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