Todos os anos, milhões de brasileiros repetem o mesmo discurso: "o problema do Brasil são os políticos". A frase se tornou quase um mantra nacional. Nas redes sociais, nas mesas de bar, nos grupos de família e nas filas do supermercado, a culpa é sempre atribuída aos governantes. Mas talvez seja hora de fazer uma pergunta incômoda:
E se o maior problema do Brasil não forem os políticos? E se for o próprio povo?Uma imagem, que circulou nas redes sociais há algumas semanas, de garrafas de refrigerante expostas com os pacotes de figurinhas arrancados ilustra muito mais do que um prejuízo financeiro para uma empresa. Ela simboliza uma cultura preocupante: a cultura da vantagem imediata, do "ninguém vai perceber", do "se eu não pegar, outro pega".
Independentemente de esse caso específico ter ocorrido exatamente como divulgado ou de sua dimensão real, a mensagem é poderosa. Ela retrata um comportamento que muitos insistem em tratar como esperteza, quando na verdade é apenas desonestidade.
É comum ouvir que o Congresso é corrupto, que prefeitos desviam recursos, que governadores são ineficientes ou que o Estado funciona mal. Tudo isso pode ser objeto de críticas legítimas. Mas vale lembrar um fato simples:
Os políticos não caíram do céu. Eles nasceram na mesma sociedade que critica seu comportamento.São filhos de famílias brasileiras, estudaram em escolas brasileiras, frequentaram os mesmos supermercados, dirigem nas mesmas ruas e conviveram com a mesma cultura que muitas vezes normaliza pequenas infrações.
A sociedade costuma se indignar com o grande escândalo de corrupção, mas tolera ou até celebra o pequeno ato cotidiano de desonestidade:
- Furar a fila porque "é rapidinho".
- Comprar produto pirata porque "é mais barato".
- Estacionar em local proibido por "apenas cinco minutos".
- Pedir nota fiscal com valor menor para "pagar menos imposto".
- Usar documentos ou benefícios de terceiros indevidamente.
- Abrir embalagens para retirar brindes sem pagar pelo produto.
- Levar itens do hotel porque "já está incluso na diária".
- Fraudar meia entrada ou mentir para obter descontos; e assim por diante.
Cada uma dessas atitudes parece insignificante isoladamente. Juntas, elas formam uma cultura.Existe um orgulho equivocado em torno do chamado "jeitinho brasileiro". Muitos o apresentam como capacidade de improvisação ou criatividade para resolver problemas. Mas há uma enorme diferença entre encontrar soluções inteligentes e simplesmente ignorar regras quando elas atrapalham interesses pessoais.
Quando alguém manipula uma situação para obter uma vantagem indevida, o nome disso não é inteligência. É desonestidade.
A criatividade constrói empresas, tecnologias e oportunidades. O jeitinho destrói confiança.O Brasil convive com desigualdades econômicas, dificuldades educacionais e inúmeros desafios estruturais. Porém, existe uma pobreza ainda mais devastadora: a pobreza de espírito. Ela se manifesta quando alguém acredita que levar vantagem é motivo de orgulho. Ela aparece quando um cidadão condena um político corrupto pela manhã e tenta sonegar impostos à tarde. Ela surge quando uma pessoa exige honestidade das autoridades, mas devolve troco errado apenas se for pega. Não se trata de dinheiro, escolaridade ou posição social. Pessoas ricas e pobres podem agir com ética ou sem ela. O verdadeiro divisor é o caráter.
Uma lembrança que tenho dos terríveis anos 1970, ocasião onde eu era criança, é a famosa "Lei de Gérson" é uma das expressões mais conhecidas da cultura popular brasileira. Curiosamente, ela não nasceu de uma lei, nem de um debate político, mas de um comercial de televisão exibido em 1976, quando ainda era comum a propaganda de cigarros na TV. O protagonista da campanha era o ex-jogador Gérson, conhecido como "Canhotinha de Ouro" e um dos principais jogadores da seleção tricampeã mundial de 1970.
No comercial dos cigarros Vila Rica, Gérson dizia:
"Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também."
A intenção da agência de publicidade era simples: transmitir a ideia de que o consumidor poderia comprar um produto de boa qualidade por um preço menor. A "vantagem" seria econômica, não moral. O público, porém, interpretou a frase de forma muito diferente.
Rapidamente, a expressão "gosto de levar vantagem em tudo" passou a representar uma atitude de quem busca benefícios pessoais a qualquer custo, mesmo desrespeitando regras, prejudicando outras pessoas ou agindo de maneira antiética. Foi assim que nasceu a expressão "Lei de Gérson".
Com o aumento das denúncias de corrupção e escândalos políticos durante os anos 1980, a imprensa passou a utilizar cada vez mais esse termo, consolidando-o no vocabulário brasileiro como sinônimo da cultura do "vale tudo para ganhar".
Durante décadas, Gérson declarou diversas vezes que se arrependeu de ter participado da campanha. Segundo ele, jamais imaginou que sua imagem ficaria eternamente associada à ideia de desonestidade. O objetivo do comercial era apenas mostrar que um produto mais barato poderia oferecer boa qualidade.
O diretor da propaganda também afirmou posteriormente que houve uma interpretação diferente daquela pretendida. Tanto que um segundo comercial tentou esclarecer que "levar vantagem não é passar ninguém para trás, é chegar na frente", mas essa explicação nunca teve o mesmo impacto da frase original.
Hoje é difícil imaginar, mas durante os anos 1960 e 1970 era absolutamente normal que cigarros fossem anunciados na televisão. Grandes atletas, artistas e apresentadores faziam propaganda de marcas de cigarro, algo que seria proibido décadas depois em razão das políticas de saúde pública.
Nesse contexto, o comercial do Vila Rica tornou-se um dos anúncios mais famosos da história da publicidade brasileira, justamente porque extrapolou seu objetivo comercial e acabou influenciando o próprio vocabulário nacional.
Quase cinquenta anos depois, a expressão continua sendo usada para criticar comportamentos oportunistas, tanto na política quanto no mundo corporativo e nas relações cotidianas.
Embora não exista qualquer "lei" com esse nome, a expressão permanece viva como um símbolo de uma mentalidade baseada em obter vantagem individual acima dos princípios éticos. Ao mesmo tempo:
Muitos estudiosos alertam que ela não deve ser tomada como uma característica inerente do povo brasileiro, mas como uma crítica a comportamentos oportunistas que podem existir em qualquer sociedade.
Quando brindes são furtados de produtos, empresas reforçam embalagens, aumentam gastos com segurança ou encerram campanhas promocionais. Quando mercadorias desaparecem das prateleiras, os prejuízos acabam incorporados aos preços. Quando fraudes se tornam frequentes, contratos ficam mais burocráticos, seguros ficam mais caros e serviços passam a exigir controles adicionais. No fim, o consumidor honesto paga pelos atos do desonesto.
A lógica é simples: cada pequena fraude espalhada pela sociedade representa um custo coletivo.Uma democracia dificilmente produzirá governantes muito diferentes da cultura predominante entre seus cidadãos.
Se uma parcela significativa da população considera aceitável mentir, trapacear ou buscar vantagens pessoais em detrimento do interesse coletivo, é ilusório esperar que todos os seus representantes sejam exemplos de integridade.
Isso não significa responsabilizar apenas a população pelos problemas institucionais do país, mas reconhecer que instituições são compostas por pessoas. Valores sociais influenciam comportamentos individuais e também moldam lideranças públicas e privadas.
Transformar um país não depende apenas de grandes reformas ou de uma eleição. Começa quando alguém devolve um objeto perdido. Quando recusa uma vantagem indevida. Quando respeita uma fila. Quando paga pelo que consome. Quando ensina uma criança que honestidade vale mais do que esperteza. Quando entende que ética não é algo que se exige dos outros, mas algo que se pratica.
Há alguns anos, eu dirigia pela minha cidade em um sábado, próximo a um parque, acompanhado do meu filho mais novo. Em determinado momento, vimos um smartphone caído no meio da rua. Parei o carro e peguei o aparelho.
Ao voltar para o carro, disse ao meu filho:
“Vamos tentar devolver o aparelho ao dono. Se não conseguirmos contato e ninguém o procurar em até 15 dias, então ele poderá ser seu, já que está novo e é bem melhor do que o que você tem.”
Quando cheguei em casa, percebi que o celular estava sem bateria. Coloquei-o para carregar e, assim que foi possível ligá-lo, tentei desbloqueá-lo, mas sem sucesso. Não me lembro exatamente como, mas consegui visualizar um contato identificado como “mãe”.
Liguei para aquele número e informei que havia encontrado o aparelho. A pessoa ficou surpresa e muito aliviada. Expliquei que ela poderia buscá-lo no meu endereço.
Pouco tempo depois, vieram o marido e a esposa. Eles me disseram que estavam desesperados com a perda do celular. Em seguida, perguntaram quanto eu queria para devolvê-lo. Respondi simplesmente:
“Nada. Por que eu deveria cobrar?”
Eles agradeceram emocionados e disseram:
“Se todos fossem iguais a você, o mundo seria diferente.”
Eu apenas respondi:
“Só faço aquilo que gostaria que outra pessoa fizesse por mim.”
Talvez seja mais fácil apontar o dedo para Brasília do que olhar para o espelho. É confortável acreditar que todos os problemas nacionais decorrem de decisões tomadas por governantes distantes.
Entretanto, uma sociedade é construída diariamente por milhões de escolhas individuais. O país que desejamos depende, em grande medida, dos comportamentos que aceitamos ou rejeitamos em nossa vida cotidiana.
Se queremos representantes mais íntegros, precisamos valorizar a integridade desde as pequenas ações. Se queremos instituições fortes, precisamos fortalecer a cultura da responsabilidade. E se queremos um Brasil melhor, talvez o primeiro passo seja abandonar a ideia de que o problema está sempre nos outros.
Porque um povo que transforma a honestidade em exceção dificilmente colherá líderes que façam dela a regra. A verdadeira mudança não começa nas urnas, começa na consciência de cada cidadão.