À procura de uma luz no fim do túnel
Quando comecei a procurar respostas para compreender melhor meu filho, imaginava que a informação diminuiria minhas dúvidas. Descobri que, às vezes, acontece exatamente o contrário.
Este texto parte de uma experiência real e pessoal, vivida durante a busca por compreender melhor as necessidades do meu filho. Não pretende substituir orientação, avaliação ou diagnóstico profissional. A consulta a profissionais especializados e qualificados é essencial para uma investigação responsável, especialmente porque cada criança possui características, necessidades e contextos próprios.
Eu não comecei essa busca procurando um diagnóstico ou um rótulo que explicasse meu filho.
Eu procurava informação.
Queria entender melhor algumas situações, aprender a manejá-las, compreender determinados comportamentos e, sobretudo, encontrar maneiras de conduzir meu filho de forma mais assertiva.
Parecia simples: como eu não sabia “o que era”, precisava aprender.
Então comecei a procurar e encontrei um abismo.
Quanto mais pesquisava, mais perguntas apareciam. Profissionais diferentes enxergavam a mesma criança de maneiras distintas. A escola tinha suas percepções. A família tinha outras. E a internet, naturalmente, parecia ter todas as respostas.
Até que eu encontrasse um caminho que me parecesse coerente e capaz de olhar para a minha criança antes de procurar um rótulo para defini-la, houve muitas noites sem dormir.
Houve crises de choro que precisei disfarçar.
Houve medo de estar fazendo pouco. Medo de estar fazendo demais. Medo de errar justamente quando eu mais queria acertar.
E surgiram dilemas que já não eram apenas sobre meu filho.
Alguns começaram a ser sobre mim mesma.
Foi assim que percebi que investigar uma possível neurodivergência pode significar entrar em um território para o qual ninguém nos entrega um mapa.
Informação demais. Segurança de menos.
Nunca tivemos tanto acesso à informação.
Em poucos minutos encontramos especialistas, influenciadores, artigos, vídeos, relatos, testes, listas de características, métodos e tratamentos.
O problema já não é encontrar informação.
É saber em qual informação confiar.
O que possui respaldo científico? O que é hipótese? O que é experiência pessoal? O que é publicidade apresentada como conteúdo educativo? E o que está sendo tratado como certeza quando ainda deveria ser investigado?
Existe ainda um novo participante nessa história: o algoritmo.
Depois de algumas pesquisas, nossas redes começam a nos devolver incessantemente aquilo que procuramos. A repetição pode produzir uma perigosa sensação de confirmação.
Mas o algoritmo não faz diagnóstico diferencial.
Ele faz retenção.
E chega um momento em que a pergunta deixa de ser apenas “o que meu filho tem?” e passa a ser outra:
“Em quem eu posso confiar?”
Entre respostas e rótulos
Existe certo conforto em dar nome às coisas. Quando algo recebe um nome, temos a sensação de finalmente compreendê-lo.
Mas crianças não são equações matemáticas (que, diga-se de passagem, meu filho adora!).
Características semelhantes podem aparecer em situações diferentes. Condições distintas podem compartilhar manifestações. E diferentes características ou condições também podem coexistir.
Foi nesse caminho que encontrei, por exemplo, o conceito de dupla excepcionalidade, quando altas habilidades ou superdotação coexistem com alguma deficiência ou condição que produza necessidades específicas.
Uma criança extremamente inteligente também pode precisar de ajuda.
Uma dificuldade não anula uma potencialidade. Uma potencialidade não elimina uma dificuldade.
A própria literatura científica ainda apresenta lacunas importantes nessa área, o que reforça a necessidade de prudência.
Ao mesmo tempo, precisamos evitar os dois extremos.
Nem toda diferença é transtorno.
Nem toda característica precisa receber um código.
Nem todo comportamento infantil precisa ser patologizado.
Investigar deveria significar tentar compreender aquela criança, e não procurar evidências para confirmar uma conclusão que já escolhemos.
Quando a dúvida encontra um mercado
Meu filho tinha três anos quando vivi uma situação que mudou profundamente a maneira como passei a receber recomendações profissionais.
Em uma clínica localizada em um bairro privilegiado de São Paulo, apresentada como referência na área, recomendaram que eu retirasse meu filho da escola de educação infantil e o deixasse em período integral na própria clínica.
Em um período, segundo me explicaram, seriam desenvolvidas atividades baseadas na BNCC. No outro, ele realizaria as terapias indicadas.
No auge dos três anos, meu filho passaria quarenta horas semanais dentro de uma clínica.
Quase uma jornada integral de trabalho.
Mas havia ainda uma vantagem apresentada naquela proposta: nossa família não precisaria mais pagar uma escola, porque o custo seria integralmente suportado pelo plano de saúde.
Naquele momento, eu não conhecia profundamente a BNCC nem sabia discutir tecnicamente os limites entre escolarização e atendimento terapêutico.
Eu era simplesmente uma mãe tentando entender qual era a melhor decisão para o filho de três anos.
Mas alguma coisa não fazia sentido.
Por que eu retiraria meu filho da escola?
Por que substituiria a convivência com outras crianças, professores, brincadeiras e experiências próprias da infância por um dia inteiro dentro de uma clínica?
Quarenta horas por semana.
E por que o fato de o plano de saúde pagar por aquilo estava sendo apresentado como uma vantagem?
Foi quando percebi algo que nunca mais esqueci: eu não precisava dominar tecnicamente um assunto para reconhecer que tinha perguntas legítimas a fazer.
Eu podia perguntar. Podia procurar outra opinião. E podia dizer não.
Foi o que fiz.
Aquela experiência rompeu minha confiança naquela clínica e também me fez enxergar a complexidade econômica existente em torno das terapias.
Não faço aqui qualquer defesa das operadoras de planos de saúde. Famílias que realmente necessitam de tratamentos enfrentam negativas e limitações que podem ser injustas e até abusivas.
Mas também não me parece honesto ignorar o outro lado.
Quando interesses econômicos interferem na indicação de serviços, todo o sistema pode ser prejudicado. E quem realmente precisa de atendimento também pode sofrer as consequências.
Não afirmo que situações como aquela expliquem as negativas das operadoras. O problema é muito mais complexo.
Mas aprendi que reconhecer o conhecimento de um profissional não significa entregar a ele todas as decisões sobre o nosso filho.
Qual é a evidência?
Onde existe incerteza, existe espaço para quem promete certeza.
Métodos podem ganhar aparência científica. Termos técnicos conferem autoridade. Relatos individuais são apresentados como prova. E, justamente quando estamos desesperadas por respostas, alguém pode aparecer oferecendo uma solução simples, definitiva e, às vezes, milagrosa.
Por isso, duas perguntas passaram a me acompanhar:
Qual é a evidência?
E evidência para quê?
Qual é o objetivo dessa intervenção? Qual benefício é esperado? Como saberemos se funcionou? Existem alternativas?
Questionar um diagnóstico não significa negar diagnósticos.
Pedir uma segunda opinião não significa procurar alguém que diga aquilo que queremos ouvir.
Questionar uma intervenção não significa rejeitar tratamento. Significa participar.
Um bom profissional não perde autoridade quando explica. Ele ganha confiança.
E ciência séria também conhece seus limites.
Às vezes, a resposta mais responsável será simplesmente:
“Ainda não sabemos.”
Crianças não cabem em laudos
Depois de consultas, avaliações e questionários, talvez finalmente chegue aquele documento que parecia representar o fim da investigação.
O laudo.
Ele pode ser extremamente importante. Pode explicar dificuldades, orientar intervenções, auxiliar a escola, permitir adaptações e contribuir para o acesso a direitos.
Mas um laudo é um instrumento.
Não uma identidade.
Meu filho continua sendo meu filho antes e depois de qualquer avaliação.
Continua tendo seu humor, seus interesses, suas habilidades, suas dificuldades, suas manias e sua criatividade.
Nenhum código consegue registrar tudo isso.
O diagnóstico que deveria ajudar a retirar obstáculos não pode construir novos.
O laudo deve servir à criança. A criança jamais deveria passar a servir ao laudo.
E a mãe, onde fica?
Talvez essa seja a pergunta que demorei mais tempo para fazer.
Enquanto todos observavam a criança, eu tentava administrar consultas, escola, relatórios, pesquisas, opiniões, desespero, inseguranças maternas, decisões e dúvidas.
E uma pergunta voltava principalmente quando a casa ficava silenciosa:
“Será que estou fazendo a coisa certa?”
Será que eu deveria ter percebido antes?
Será que estou fazendo o suficiente?
E se eu fizer a escolha errada justamente tentando acertar?
Foi também aí que percebi que essa investigação não estava produzindo perguntas apenas sobre meu filho.
Algumas começaram a apontar para mim.
Para a forma como eu penso.
Para dificuldades que sempre considerei parte da minha personalidade.
Para características que talvez eu tenha simplesmente aprendido a administrar.
Não tenho respostas para todas essas perguntas.
E talvez eu não precise tê-las agora.
Talvez a luz esteja justamente aí
Quando comecei essa busca, queria respostas.
Hoje, talvez eu queira algo um pouco diferente.
Quero boas perguntas.
Por que essa avaliação é necessária? Existem outras hipóteses? Qual evidência sustenta essa recomendação? Qual é o objetivo dessa intervenção? Como saberemos se está funcionando?
Quero profissionais que consigam dizer “não sei” quando não souberem.
Quero ciência suficiente para desconfiar das certezas fáceis.
Serenidade suficiente para não transformar cada diferença em um problema.
E coragem suficiente para investigar aquilo que realmente precisa ser investigado.
Talvez essa seja a luz no fim do túnel.
Não encontrar alguém que possua todas as respostas, mas aprender a fazer as perguntas certas.
Um diagnóstico pode trazer respostas. Um laudo pode abrir portas. A ciência pode indicar caminhos.
Mas nenhum deles deve determinar os limites de quem uma criança poderá ser.
E talvez exista outra descoberta nesse percurso.
Enquanto tentamos compreender nossos filhos, também aprendemos alguma coisa sobre nós mesmas.
Não para substituir profissionais, mas para ocupar conscientemente o lugar que também é nosso: o de mãe que observa, pergunta, escuta, duvida, aprende e participa das decisões.
Afinal, nossos filhos não são diagnósticos.
E nós também não somos apenas as mães deles.
Somos mães singulares, criando filhos singulares, tentando encontrar caminhos em um mundo que ainda insiste demais em oferecer respostas iguais para pessoas diferentes.
E é sobre esses caminhos, dúvidas, descobertas e contradições que continuaremos conversando nos próximos artigos e na série Mães Singulares, em breve.