Há frases que parecem pequenas quando são ditas, mas se tornam gigantes quando finalmente compreendemos o que significavam.
Certa época da minha vida, quando estava na faixa dos 40 anos, eu era diretor de uma empresa em plena ascensão. Estava envolvido com o crescimento do negócio, com os resultados, com as decisões estratégicas e com todos os problemas que costumam chegar primeiro à mesa de quem ocupa uma posição de liderança.
Eu dava meu sangue pela empresa.
Trabalhava de 12 a 15 horas por dia, de segunda-feira a sábado. Acordava pensando nos problemas da organização voltava para casa quando meus filhos já estavam dormindo. Quando estava fisicamente presente, minha mente continuava ocupada com metas, reuniões, contratos, crises, pessoas e números.
Meu filho mais velho tinha apenas cinco anos.
Nas noites de domingo, quando eu o colocava para dormir, ele costumava se despedir de mim dizendo:
“Tchau, pai. Até domingo!”
Ele não dizia aquilo para me provocar. Também não era uma reclamação consciente. Aos cinco anos, ele apenas descrevia a realidade que conhecia. Para ele, o pai era alguém que aparecia verdadeiramente aos domingos.
Durante a semana, eu morava na mesma casa, mas quase não participava da vida dele.
Esta é a razão pela qual escrevo especialmente para executivos, empreendedores e profissionais que estão hoje na faixa dos 30 aos 50 anos e têm crianças em casa:
Nunca permitam que o trabalho transforme vocês em visitantes na infância dos próprios filhos.A armadilha da responsabilidade
É importante reconhecer que a maioria dos pais e mães que trabalha excessivamente não faz isso porque não ama os filhos. Muito pelo contrário. Trabalha porque acredita que está construindo segurança, estabilidade e oportunidades para a família.
O problema começa quando uma necessidade temporária se transforma em um modo permanente de vida.
Primeiro, ficamos até mais tarde porque existe um projeto importante. Depois, porque a empresa está crescendo. Em seguida, porque surgiu uma crise. Logo chega uma promoção, acompanhada de novas responsabilidades. Quando percebemos, passaram-se cinco, dez ou quinze anos.
Durante esse período, costumamos repetir algumas frases:
“Estou fazendo isso por eles.”
“Quando a empresa estiver estruturada, terei mais tempo.”
“Depois desta fase, vou desacelerar.”
“Meus filhos ainda são pequenos, eles não vão se lembrar.”
Mas a infância não espera a conclusão do projeto, o fechamento do trimestre ou a próxima promoção. Ela acontece enquanto estamos ocupados.
Uma criança de cinco anos não compreende planejamento patrimonial, crescimento profissional ou responsabilidade executiva. Ela compreende presença e ausência. Entende quem senta no chão para brincar, quem pergunta como foi o dia, quem comparece à apresentação da escola, quem ouve suas histórias e quem está olhando para o celular enquanto ela tenta conversar.
A carreira é recuperável, a infância não
No ambiente corporativo, aprendemos que praticamente tudo pode ser reorganizado. Projetos atrasados podem receber novos cronogramas. Processos podem ser redesenhados. Empresas podem ser reestruturadas. Clientes podem ser reconquistados. Recursos podem ser substituídos.
O tempo de uma criança, não.
Seu filho terá cinco anos apenas uma vez.
Você poderá, no futuro, comprar uma casa maior, viajar mais, oferecer uma universidade melhor e proporcionar conforto. Porém, não poderá voltar no tempo para participar daquela brincadeira, daquela reunião escolar, daquele medo noturno ou daquela conversa que parecia sem importância.
O perigo é descobrir tarde demais que você conseguiu pagar tudo para seus filhos, menos aquilo que eles mais esperavam receber: você.
Não se trata de abandonar a ambição, rejeitar cargos de liderança ou tratar o sucesso profissional como algo vergonhoso. Trabalhar, construir patrimônio e buscar realização também são formas de cuidado. O problema está em transformar o sacrifício familiar em demonstração de competência.
Jornadas intermináveis não deveriam ser medalhas de honra.
Segundo uma análise conjunta da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho, trabalhar 55 horas ou mais por semana está associado a um risco 35% maior de acidente vascular cerebral e a um risco 17% maior de morte por doença cardíaca isquêmica, quando comparado a jornadas de 35 a 40 horas semanais. Portanto, o executivo que se destrói trabalhando pode não estar garantindo o futuro da família. Pode estar aumentando a possibilidade de não participar dele.
O escritório continuará funcionando
Existe uma verdade desconfortável para quem ocupa cargos importantes: a empresa encontrará uma maneira de continuar sem você.
Talvez não imediatamente. Talvez sua saída cause dificuldades, atrasos e desconforto. Ainda assim, haverá uma substituição, uma redistribuição de funções, uma nova contratação ou uma reorganização.
Em pouco tempo, outra pessoa ocupará sua sala, participará das reuniões, receberá seus e-mails e tomará decisões que antes eram suas.
Na família, a substituição não funciona da mesma forma.
Seus filhos podem aprender a viver sem a sua presença, mas isso não significa que ninguém tenha sentido a sua ausência. Significa apenas que eles foram obrigados a se adaptar.
O maior risco não é que a criança reclame. É que ela pare de reclamar.
No início, ela pede que você fique. Depois pergunta quando você voltará. Em seguida, acostuma-se a não contar com você. Um dia, quando você finalmente tiver tempo, talvez descubra que ela já construiu uma vida emocional na qual sua participação é secundária.
A criança que aprende a não incomodar o pai ocupado pode se tornar o adolescente que não conta mais seus problemas e o adulto que mantém uma relação educada, porém distante.
Presença não é apenas estar dentro de casa
Depois do avanço do trabalho remoto, muitas famílias passaram a enfrentar uma forma ainda mais sutil de ausência. O pai ou a mãe está em casa, mas permanece emocionalmente preso ao trabalho.
A criança vê o adulto no mesmo ambiente, porém sempre diante de uma tela, atendendo a uma ligação ou pedindo silêncio porque está em reunião. Isso produz uma mensagem confusa: “Meu pai está aqui, mas não está disponível para mim.”
A presença real exige atenção.
O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, destaca a importância das interações responsivas entre crianças e adultos. São trocas simples, nas quais a criança demonstra interesse, faz uma pergunta, aponta algo ou manifesta uma emoção, e o adulto responde com atenção, palavras, contato visual ou afeto. Essas interações contribuem para a formação das conexões cerebrais relacionadas à comunicação, às habilidades sociais e ao bem-estar emocional.
Isso significa que estar presente não exige necessariamente criar grandes acontecimentos. Uma conversa no café da manhã, uma caminhada, uma refeição sem celular, quinze minutos de brincadeira ou a leitura de uma história podem ter grande significado.
Entretanto, também não devemos cair no discurso confortável de que “basta ter tempo de qualidade”.
Qualidade é fundamental, mas não pode ser usada como desculpa para uma ausência quase permanente.Relacionamentos precisam de convivência. A intimidade familiar nasce também dos momentos comuns, repetitivos e aparentemente banais.
Exemplos que acontecem todos os dias
Imagine um executivo que viaja durante quatro dias da semana e tenta compensar sua ausência comprando presentes aos filhos. As crianças podem gostar dos presentes, mas rapidamente percebem que os objetos chegam no lugar da presença.
Pense na mãe que ocupa uma posição de liderança, participa de reuniões durante todo o dia e continua respondendo a mensagens durante o jantar. Ela pode acreditar que está apenas resolvendo algo urgente, mas, para a criança, aquele celular está recebendo a atenção que deveria estar na mesa.
Considere o empreendedor que promete assistir à apresentação escolar, mas cancela porque surgiu uma reunião com um investidor. Para ele, trata-se de uma decisão racional e financeiramente importante. Para o filho, aquela cadeira vazia pode representar algo muito diferente.
Há ainda o profissional que participa das férias familiares, mas leva o computador e passa grande parte da viagem trabalhando. Nas fotografias, todos estiveram juntos. Na memória afetiva, talvez não.
Nenhuma dessas situações isoladas define uma mãe ou um pai. O problema é a repetição. Quando a exceção se torna rotina, a criança aprende qual é sua verdadeira posição na lista de prioridades.
O falso heroísmo corporativo
Durante muito tempo, o mundo empresarial glorificou quem chegava primeiro e saía por último. Executivos contavam com orgulho que dormiam quatro horas por noite, não tiravam férias e trabalhavam aos domingos.
Isso era apresentado como comprometimento.
Na realidade, muitas vezes tratava-se de uma mistura de cultura organizacional tóxica, falta de delegação, centralização, medo de perder poder, insegurança e incapacidade de estabelecer limites.
Um líder que precisa trabalhar 15 horas por dia durante anos pode não ser indispensável. Talvez tenha construído uma organização excessivamente dependente dele.
Liderar também significa formar sucessores, delegar decisões, criar processos, distribuir responsabilidades e impedir que toda emergência termine sempre na mesma pessoa.
Se a empresa só funciona quando o diretor sacrifica a saúde e a família, ela não está bem administrada. Está apenas sustentada pelo esgotamento de alguém.
O que os executivos podem fazer agora
O primeiro passo é abandonar a ideia de que o equilíbrio surgirá espontaneamente depois que o trabalho diminuir. O trabalho raramente diminui por conta própria. Quanto mais competente você demonstra ser, mais responsabilidades tende a receber.
É necessário estabelecer limites deliberadamente.
Defina horários em que mensagens e ligações profissionais somente serão atendidas em situações realmente críticas. Proteja algumas refeições da família. Coloque os compromissos dos filhos na agenda com a mesma seriedade dedicada a uma reunião de conselho. Crie momentos individuais com cada criança. Desligue o celular quando estiver conversando com ela.
Mais importante, pergunte aos seus filhos como eles percebem sua presença.
Não pergunte apenas se eles sabem que você os ama. Pergunte quando sentem sua falta, quais momentos gostariam de compartilhar e o que gostariam que você fizesse com eles.
Talvez as respostas incomodem. Escute mesmo assim.
Executivos também precisam observar o exemplo que oferecem às próprias equipes. Um diretor que envia mensagens às 23 horas, trabalha todos os sábados e valoriza quem permanece no escritório até tarde comunica, mesmo sem dizer, que a carreira deve ocupar todos os espaços da vida.
Ao respeitar a própria família, o líder também autoriza os demais profissionais a respeitarem as deles.
Não espere seus filhos crescerem para perceber
Hoje, ao recordar aquela frase, compreendo sua dimensão:
“Tchau, pai. Até domingo!”
Meu filho não estava se despedindo apenas daquela noite. Ele estava revelando como minha vida profissional havia organizado nossa relação.
Eu acreditava que estava construindo o futuro da minha família. Ao mesmo tempo, corria o risco de me ausentar do presente dela.
Não escrevo isso para condenar quem precisa trabalhar muito. Milhões de pessoas enfrentam jornadas extensas porque não têm escolha. Escrevo principalmente para quem, ocupando posições de liderança, já possui algum poder de decisão sobre a própria agenda, mas continua agindo como se toda demanda corporativa fosse inadiável.
A empresa pode precisar de você. Seus filhos também precisam.
A diferença é que a empresa sabe convocá-lo com reuniões, notificações, metas, relatórios e telefonemas. A criança, muitas vezes, faz apenas um convite tímido para brincar. Se ouvir muitos “agora não”, acabará parando de convidar.
Entre os 30 e os 50 anos, é comum viver simultaneamente o período mais intenso da carreira e os anos mais importantes da infância dos filhos. É justamente por isso que essa fase exige escolhas conscientes.
Não espere conquistar tempo para depois oferecê-lo à família. Tempo não é um patrimônio que possa ser acumulado para uso futuro.
Sucesso profissional é importante. Proporcionar segurança à família também. Mas nenhuma posição, remuneração ou reconhecimento compensará completamente a descoberta de que, enquanto você construía uma grande carreira, seus filhos aprenderam a crescer sem você.
Que nenhuma criança precise olhar para o pai ou para a mãe numa noite de domingo e despedir-se por mais uma semana.E que nenhum executivo precise ouvir, tarde demais:
“Tchau. Até domingo.” Esse é o maior arrependimento de minha vida.
Referências bibliográficas
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