Ir embora é um direito, transformar a fuga em lição de coragem é outra história.
Há algo profundamente sedutor nas histórias de transformação pessoal publicadas nas redes sociais, como o próprio Linkedin. Elas quase sempre seguem um roteiro cuidadosamente montado: primeiro vem o trauma, depois a decisão corajosa, em seguida a mudança radical e, por fim, a indispensável lição de vida oferecida ao público. O sofrimento aparece como prólogo, a mudança como ato heroico e o novo endereço como prova de que a pessoa finalmente “escolheu viver”.
É uma fórmula eficiente, gera identificação, comentários emocionados, elogios à coragem e, naturalmente, engajamento.
O problema começa quando uma decisão particular, perfeitamente legítima, é embalada como se fosse uma verdade universal sobre coragem, qualidade de vida e superação.
Especialmente quando essa decisão consiste em deixar o Brasil, instalar-se em outro país e, depois de algum tempo, explicar aos que permaneceram que basta “fazer um plano e ir”.
Ir para outro país não é, necessariamente, um ato de coragem superior. Permanecer também pode exigir coragem. Às vezes, muito mais.A violência não pode ser relativizada
Como exemplo, ter o vidro do carro quebrado diante da esposa e de uma criança pequena é uma experiência brutal. Não existe qualquer argumento razoável para diminuir o medo, o trauma ou a revolta de quem passa por isso. A violência urbana invade não apenas o patrimônio, mas também a sensação de segurança, a memória da família e a relação emocional com a cidade.
Quem vivencia algo assim tem todo o direito de rever prioridades, aceitar uma oportunidade profissional no exterior e buscar um lugar onde se sinta mais protegido. Ninguém deveria ser condenado por procurar segurança para os filhos.
Mas reconhecer esse direito não significa aceitar automaticamente toda a narrativa construída ao redor da decisão.
Uma experiência traumática pode explicar uma mudança, mas não transforma essa mudança em solução coletiva. Muito menos autoriza a conclusão de que quem continua no Brasil permanece porque tem medo, falta de planejamento ou apego à “zona de conforto”.
Para milhões de brasileiros, permanecer não é conforto. É necessidade. E para muitos outros, permanecer é escolha consciente, compromisso, pertencimento e resistência.
“Faça um plano e vá” é conselho de quem pode ir
Há uma frase recorrente nas redes profissionais: “Faça um plano e vá”.
Parece simples, inspiradora e libertadora. Também é uma frase carregada de privilégio.
Quem possui formação valorizada internacionalmente, experiência profissional, domínio de idiomas, recursos financeiros, documentação regular, contatos no exterior e uma proposta recebida pelo LinkedIn não está diante da mesma realidade de quem sustenta os pais, cuida de familiares, trabalha informalmente, possui filhos em tratamento, não tem reserva financeira ou sequer consegue pagar a emissão de documentos para toda a família.
Não se trata de diminuir o mérito de quem conquistou uma oportunidade internacional. Trata-se apenas de parar de apresentar uma possibilidade restrita como se fosse uma escolha disponível a todos.
“Bora viver” é uma boa frase para fechar uma publicação. A vida real, no entanto, não cabe em uma legenda motivacional.
A maior parte da população brasileira não está “sentada em cima do medo de mudar”. Está sentada em um ônibus lotado, acordando antes das cinco da manhã, pagando aluguel, sustentando filhos, enfrentando filas, impostos, desemprego, violência e serviços insuficientes. Não falta coragem a essas pessoas. Muitas vezes, faltam dinheiro, oportunidade, rede de apoio e passaporte.
O Brasil não é um hotel ruim do qual basta fazer o check-out
Existe um comportamento que merece ser discutido com mais honestidade: o de tratar o Brasil como um estabelecimento que não cumpriu as expectativas do cliente.
Quando o país apresenta violência, corrupção, desigualdade ou desorganização, algumas pessoas simplesmente concluem que “o Brasil não tem jeito”. Arrumam as malas, partem e passam a acompanhar o país de longe, geralmente para confirmar que tomaram a decisão correta. Inclui-se nisso uma quantidade bem grande de "empresários" que tem seus negócios aqui e vivem no luxo oferecido por outros países.
O Brasil não é bom para eles, mas é bom para sustentá-los.Tudo o que acontece no Brasil vira prova de decadência. Tudo o que funciona no exterior vira evidência de superioridade civilizatória.
O buraco na rua brasileira é sinal de falência nacional. O problema semelhante no exterior é uma eventualidade administrativa. A criminalidade brasileira é consequência de um povo supostamente incapaz. A criminalidade estrangeira é um episódio isolado. A burocracia brasileira é atraso. A burocracia europeia é rigor institucional. O preconceito no Brasil é estrutural. O preconceito sofrido no exterior, quando finalmente aparece, é tratado como surpresa.
Essa comparação seletiva produz um Brasil permanentemente humilhado e um exterior artificialmente idealizado.
Nenhum país é um paraíso. Portugal não é. Canadá não é. Estados Unidos não são. Austrália não é. A Europa não é um condomínio protegido da história. Países enfrentam crises econômicas, mudanças políticas, tensões migratórias, desemprego, xenofobia, terrorismo, inflação, dificuldade habitacional e deterioração dos serviços públicos.
O passaporte muda o endereço. Não revoga a realidade.
O emigrante não deixa de ser brasileiro quando o avião decola
Ir embora não elimina os vínculos com o país de origem. Quem sai continua levando sua formação, sua língua, sua memória, suas referências culturais e, muitas vezes, os benefícios de tudo o que recebeu anteriormente da sociedade brasileira.
Muitos profissionais que hoje celebram carreiras internacionais estudaram em escolas públicas, universidades públicas ou instituições subsidiadas, utilizaram serviços de saúde, receberam formação profissional e construíram experiência em empresas brasileiras. Isso não cria uma dívida eterna nem obriga ninguém a permanecer. Mas deveria, no mínimo, produzir alguma humildade antes de declarar que o país abandonado não ofereceu nada.
Há também uma contradição incômoda. Algumas pessoas passam anos afirmando que o Estado brasileiro é incompetente, caro e inútil. Porém, quando enfrentam uma guerra, uma crise sanitária, uma convulsão política ou qualquer emergência grave no exterior, lembram rapidamente que possuem um país de origem. De repente, exigem atuação diplomática, assistência consular, repatriação e, em certos casos, aviões públicos para buscá-las. E ficam em redes sociais com cara de sofrimento esperando atenção do público que ficou e lutou e continua lutando aqui.
O Estado que ontem era tratado como um peso passa a ser convocado como pai emergencial.É evidente que o Brasil deve proteger seus cidadãos dentro das possibilidades legais e diplomáticas, inclusive aqueles que vivem fora. Essa é uma responsabilidade legítima do Estado. O questionamento não está no socorro, mas na conveniência moral de desprezar o país em tempos tranquilos e reivindicá-lo com urgência quando o projeto internacional desmorona.
E o pior de tudo é que todos que ficaram pagarão a conta para os que foram embora voltarem.Não se pode tratar a cidadania como um seguro de viagem que só é lembrado durante uma emergência.
E se o país escolhido deixar de ser acolhedor?
Todo movimento migratório está sujeito ao humor político do país que recebe. Estrangeiros podem ser bem-vindos enquanto ajudam a preencher vagas, movimentam a economia, alugam imóveis e pagam impostos. Mas o ambiente pode mudar rapidamente diante de recessões, crises habitacionais, desemprego ou crescimento de movimentos nacionalistas.
Quando faltam casas, empregos ou serviços públicos, o imigrante frequentemente se transforma no culpado mais conveniente.Se um dia as condições mudarem, é legítimo que um brasileiro decida retornar. Ninguém deve ser condenado por rever escolhas. O problema está em voltar exigindo que o país reencontrado permaneça emocionalmente congelado, pronto para receber sem questionamentos quem passou anos descrevendo-o como um lugar do qual qualquer pessoa sensata deveria escapar.
Retornar também é um direito. Arrogância no retorno, não.Quem parte deveria compreender que o Brasil continuará sendo construído, para o bem e para o mal, por aqueles que ficaram. Pelos que votaram, protestaram, empreenderam, ensinaram, pesquisaram, criaram empregos, denunciaram abusos, participaram de associações, trabalharam em projetos sociais, fiscalizaram governos e recusaram a ideia preguiçosa de que nada pode ser mudado.
Quando o país “sem futuro” precisa mandar um avião
A história recente oferece exemplos concretos de brasileiros que construíram a vida no exterior, mas, diante de guerras, pandemias e crises graves, recorreram justamente ao Estado brasileiro para voltar. É importante reconhecer que a assistência consular e a proteção de cidadãos são deveres legítimos do país. O que merece crítica não é o resgate humanitário, mas a incoerência de quem passa anos desprezando o Brasil e, na primeira emergência, redescobre a utilidade da pátria, do governo, da diplomacia, das Forças Armadas e, naturalmente, do dinheiro dos contribuintes.
Em fevereiro de 2020, no início da pandemia de Covid-19, brasileiros residentes em Wuhan, na China, solicitaram ajuda para deixar a região submetida ao confinamento. O governo mobilizou quatro aeronaves, realizou aproximadamente 150 horas de voo e organizou transporte, recepção, acompanhamento médico e quarentena na Base Aérea de Anápolis. A chamada Operação Regresso à Pátria Amada Brasil trouxe 34 pessoas da China. Toda essa estrutura foi sustentada pelo Estado brasileiro, ou seja, pelo orçamento público alimentado por quem permaneceu aqui pagando impostos.
Em 2023, após o início da guerra entre Israel e o Hamas, o Brasil mobilizou novamente aeronaves da Força Aérea Brasileira na Operação Voltando em Paz. Foram realizados sucessivos voos para retirar brasileiros e familiares de Israel, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Pessoas que haviam escolhido morar em uma região estrangeira, algumas delas por muitos anos, recorreram ao Brasil quando permanecer ali deixou de ser seguro.
O país criticado, ridicularizado e frequentemente apresentado como lugar do qual todos deveriam fugir passou, subitamente, a representar proteção, diplomacia, logística e passagem de volta.
O episódio repetiu-se em 2024, com o agravamento do conflito no Líbano. Na Operação Raízes do Cedro, aviões do governo brasileiro realizaram diversos voos e retiraram mais de 2 mil brasileiros e familiares das áreas de risco. Somente o primeiro voo chegou a São Paulo com 229 passageiros. Além do transporte aéreo, houve mobilização de militares, diplomatas, profissionais da saúde, servidores públicos, estrutura de acolhimento e atendimento social. Nada disso caiu do céu, embora os aviões tenham vindo de lá. Foi pago com recursos públicos brasileiros, ou seja, a população do Brasil pagou a passagem de volta.
Não se trata de dizer que essas pessoas deveriam ser abandonadas. Um país civilizado protege seus cidadãos, inclusive aqueles que vivem fora. Crianças, idosos e famílias em zonas de conflito não podem ser usados como instrumento de vingança política. Entretanto, é perfeitamente legítimo perguntar por que a conta da repatriação extraordinária deve recair integralmente sobre o cidadão que permaneceu no Brasil, especialmente quando parte dos beneficiados decidiu, por vontade própria, fixar residência permanente no exterior.
Talvez fosse razoável discutir mecanismos de ressarcimento proporcional para residentes permanentes retirados de países em operações emergenciais, naturalmente preservando exceções para pessoas vulneráveis ou sem condições financeiras. O Estado realizaria o resgate imediatamente, porque vidas não podem aguardar uma análise bancária, mas aqueles com capacidade econômica poderiam devolver posteriormente parte do custo da viagem. Solidariedade nacional não deveria significar necessariamente passagem gratuita e ilimitada para quem escolheu estabelecer a vida em outro país e criticar os que aqui ficaram.
Existe uma diferença entre assistência humanitária e terceirização permanente dos riscos de uma escolha pessoal. Quem decide emigrar assume benefícios, mas também deveria reconhecer responsabilidades. Não parece justo privatizar as vantagens de viver no exterior e socializar os custos quando a experiência fracassa ou o país escolhido entra em crise.
O Brasil, afinal, não pode ser tratado como aquele parente considerado inconveniente nas festas, criticado durante anos, ignorado enquanto tudo vai bem, mas chamado às pressas quando é preciso pagar a conta, oferecer abrigo ou buscar alguém de carro. Nesse momento, o brasileiro que permaneceu aqui, enfrentando os problemas nacionais e sustentando o Estado com seus impostos, descobre que também precisa financiar a passagem de volta de quem passou anos anunciando que havia escapado do país.
Ir embora continua sendo um direito. Pedir socorro também. Mas talvez seja recomendável um pouco menos de desprezo na partida, um pouco mais de responsabilidade durante a permanência no exterior e, principalmente, muito mais humildade quando o avião da FAB pousar para trazer de volta aqueles que descobriram, da pior maneira, que nenhum paraíso vem com garantia vitalícia.
Custos das operações de resgate:
Reclamar não é participação política
Existe uma diferença enorme entre identificar problemas e trabalhar para enfrentá-los.
Publicar que o Brasil é perigoso não reduz a criminalidade. Dizer que os políticos são todos iguais não melhora as instituições. Repetir que o povo não sabe votar não qualifica o debate público. Compartilhar vídeos de violência não substitui participação comunitária, cobrança legislativa, acompanhamento de políticas públicas nem atuação eleitoral responsável.
E votar a cada quatro anos, embora indispensável, também não basta.A democracia não pode funcionar como um serviço por assinatura que o cidadão avalia apenas quando recebe a cobrança. Ela exige acompanhamento contínuo, memória eleitoral, fiscalização, pressão, participação em conselhos, associações de bairro, entidades profissionais, iniciativas sociais e debates minimamente honestos.
É muito fácil exigir um país pronto. Difícil é assumir alguma responsabilidade por sua construção.
O brasileiro costuma criticar a corrupção enquanto procura um conhecido para furar uma fila. Reclama da violência, mas compra produto de procedência duvidosa. Condena os políticos, mas vota no candidato que promete vantagem pessoal. Exige serviços de padrão europeu, mas considera aceitável sonegar, subornar, falsificar, invadir, depredar ou transformar o espaço público em terra de ninguém.
Os governantes têm responsabilidades imensas e não podem ser absolvidos. Mas a sociedade também não é uma vítima completamente inocente de tudo o que produz.
Ficar não é fracassar
Há pessoas que permanecem no Brasil porque não podem sair. Há outras que ficam porque não querem. Elas gostam de sua língua, de suas relações, de sua cultura e do sentimento de pertencimento. Querem que os filhos cresçam próximos dos avós, desejam empreender aqui, trabalhar aqui e contribuir para melhorar o lugar onde nasceram.
Essas pessoas não são menos corajosas.
Talvez seja mais difícil ficar e tentar mudar alguma coisa do que partir e transformar a mudança geográfica em prova de evolução pessoal. Permanecer significa conviver diariamente com os problemas, sem o conforto psicológico de observá-los pela internet e dizer: “Ainda bem que fui embora”.
Quem fica paga impostos, enfrenta a insegurança, suporta a burocracia, participa das eleições e continua tentando construir alguma coisa apesar das frustrações. Há quem mantenha empresas abertas, gere empregos, conduza projetos sociais, trabalhe em escolas, hospitais, universidades e iniciativas comunitárias. Essas pessoas não aparecem com a mesma frequência nas narrativas inspiradoras porque sua coragem é cotidiana, silenciosa e pouco fotogênica.
Não existe aeroporto na história delas. Existe trabalho.
Mudar de país não muda automaticamente a sociedade
Também é necessário desmontar uma fantasia comum: a de que atravessar o oceano transforma imediatamente alguém em cidadão exemplar.
Há brasileiros que chegam ao exterior e respeitam regras que jamais respeitariam no Brasil. Não jogam lixo no chão, não estacionam em local proibido, não tentam subornar autoridades, não fazem barulho de madrugada e não procuram atalhos para burlar normas. Depois, usam a organização encontrada como argumento para depreciar o país de origem.
A pergunta incômoda é: por que essa civilidade só aparece depois da imigração?Talvez parte da diferença não esteja apenas no país, mas na percepção de que, no exterior, haverá fiscalização e consequência. Ou talvez exista ainda a necessidade de demonstrar que se é um “bom imigrante”, enquanto no Brasil prevalece a velha certeza de que sempre haverá uma desculpa, um contato ou um jeitinho.
Não basta mudar de território. É preciso mudar de comportamento.
Caso contrário, o indivíduo leva na bagagem exatamente os hábitos que dizia estar deixando para trás.
Nem herói por partir, nem mártir por ficar
O debate não precisa produzir santos e vilões.
Quem parte não é traidor. Quem fica não é acomodado. Quem retorna não é fracassado. Quem permanece no exterior não é automaticamente vencedor. São decisões pessoais, tomadas dentro de condições familiares, financeiras, profissionais e emocionais específicas.
A crítica necessária é dirigida à transformação dessas decisões em superioridade moral.
Uma pessoa pode dizer: “Sofri um episódio de violência, recebi uma oportunidade e decidi buscar segurança para minha família”. Isso é legítimo, compreensível e honesto.
A distorção começa quando a narrativa sugere: “Eu tive coragem de viver, enquanto você continua aí porque tem medo de mudar”.
Não, muitas pessoas continuam aqui porque estão tentando melhorar o lugar que outras decidiram abandonar.
Outras permanecem porque não receberam uma proposta internacional pelo LinkedIn. Não possuem reserva financeira, cidadania europeia, profissão exportável ou estrutura familiar para recomeçar. E ainda há aquelas que simplesmente não desejam trocar seu país por outro.
Nenhuma delas precisa ser diagnosticada por uma publicação motivacional.
O farol pode mudar uma vida, mas não pode explicar um país inteiro
Um assalto em um farol pode ser decisivo na trajetória de uma família. Mas não deveria ser usado para resumir uma cidade, um estado ou uma nação de mais de 200 milhões de habitantes.
Experiências individuais são poderosas, porém limitadas. Elas explicam sentimentos e decisões pessoais, não necessariamente a realidade completa.
Quando transformamos um trauma em uma interpretação definitiva do país, corremos o risco de substituir reflexão por ressentimento. E quando apresentamos a emigração como resposta natural à insegurança, aceitamos silenciosamente que o território deve ser abandonado por quem possui recursos, enquanto aqueles que não podem sair continuam entregues ao problema.
Se todos os que possuem formação, recursos, contatos e capacidade de mobilização forem embora, quem permanecerá para cobrar, criar, administrar, ensinar, empreender e transformar?
É claro que ninguém deve sacrificar a segurança da família em nome de um patriotismo abstrato. Mas também não deveríamos celebrar a desistência coletiva como se fosse uma filosofia de vida.
Antes de fazer as malas, talvez seja necessário fazer perguntas
Se você deseja mudar de cidade, país, profissão ou estilo de vida, faça isso. Planeje, avalie riscos, considere as condições legais, pesquise o custo de vida, entenda a cultura local e proteja sua família.
Mas não confunda mobilidade com evolução moral.
Não presuma que quem ficou teve menos coragem. Não transforme uma oportunidade profissional em fórmula universal. Não use um episódio traumático para declarar que todo um país está condenado. Não trate o exterior como paraíso nem o Brasil como um erro geográfico.
E, principalmente, não abandone completamente a responsabilidade sobre o lugar que ajudou a construir.
Participar de uma sociedade significa muito mais do que residir nela. É possível viver no exterior e continuar contribuindo para o Brasil, apoiando projetos, compartilhando conhecimento, investindo, votando de forma consciente, colaborando com iniciativas sérias e recusando o discurso fácil de que “não há mais jeito”.
Também é possível morar no Brasil e agir como se o país não lhe dissesse respeito.
A verdadeira questão, portanto, não é apenas quem foi ou quem ficou. É o que cada pessoa faz com a realidade que encontrou.
A coragem que não rende fotografia
Partir pode exigir coragem. Recomeçar em outro país, enfrentar uma nova cultura e reconstruir uma rede profissional são desafios reais. Mas ficar também exige coragem, especialmente quando ficar significa enfrentar problemas, cobrar mudanças e trabalhar por soluções que talvez só beneficiem as próximas gerações.
Há uma coragem que aparece no aeroporto, ao lado das malas e do passaporte. E há outra que acorda cedo todos os dias, abre uma empresa, mantém um projeto, ensina em uma escola, trabalha em um hospital, participa da comunidade e insiste em não desistir do país.
A primeira costuma render uma boa história no LinkedIn.
A segunda, quase nunca.
Ir embora é um direito. Voltar também. Buscar uma vida melhor não é crime, ingratidão ou covardia. Mas transformar a própria partida em sermão para quem ficou é um exercício de arrogância disfarçado de inspiração.
Se Portugal, por exemplo, deu certo, excelente. Que a família seja feliz, segura e acolhida. Mas, se algum dia as coisas mudarem, que o retorno seja feito com a mesma humildade que deveria acompanhar a partida.
Nós que ficamos não estamos necessariamente paralisados pelo medo.
Muitos de nós estamos ocupados demais tentando consertar aquilo que outros preferiram apenas criticar antes de ir embora.
Quando uma bala atravessou meu carro, mas não destruiu minha esperança
Em 2006, vivi uma situação que poderia ter encerrado definitivamente minha história. Eu voltava do trabalho para casa por volta das 22h30 e atravessava um bairro de alta renda quando um carro parou atravessado à minha frente, bloqueando completamente a passagem. Dois homens desceram. Eram jovens, aparentemente de classe média e brancos. Faço questão de mencionar essas características porque ainda existe uma tentativa simplista, preconceituosa e intelectualmente desonesta de associar automaticamente a criminalidade à população negra e pobre. Bandido não possui cor determinada, classe social exclusiva nem endereço obrigatório. A violência também usa roupas caras, frequenta bons bairros e dirige bons automóveis.
Assim que percebi o que estava acontecendo, engatei a marcha à ré e comecei a recuar. Um deles estava armado. Em determinado momento, apontou a arma diretamente para mim. Parei o carro, levantei as mãos e permaneci imóvel enquanto os dois começaram a se aproximar. Por alguma razão, desistiram. Voltaram correndo para o automóvel, mas, antes de entrar, o homem armado virou-se e atirou em direção ao meu coração.
A bala atravessou o para-brisa, perfurou o painel e passou pela região do odômetro. Pela trajetória do disparo, deveria ter atingido meu peito. Não havia uma barreira suficientemente sólida entre a arma e o meu corpo que explicasse fisicamente por que isso não aconteceu. Ainda assim, estou aqui escrevendo este relato. A bala simplesmente desapareceu daquela trajetória e, depois, foi encontrada alojada no painel, do lado do passageiro. Não tenho uma explicação física convincente para o que ocorreu. Tenho apenas a certeza de que, naquela noite, estive a centímetros, talvez a milímetros, de não voltar para casa.
Naquele momento, eu tinha um filho de apenas seis meses e outro de quatro anos. Poderia ter morrido naquela rua, deixando minha esposa viúva e duas crianças sem o pai, não porque reagi, provoquei ou enfrentei os criminosos, mas simplesmente porque estava voltando do trabalho. O tiro não tinha a finalidade de roubar meu carro. Eles já haviam desistido. Aquele disparo foi dado gratuitamente, talvez por raiva, perversidade, impulso ou pelo desejo doentio de tirar uma vida antes de ir embora.
Senti medo, evidentemente, mas o sentimento mais forte foi a raiva. Raiva da impotência de levantar as mãos diante de uma arma. Raiva de saber que minha vida, minha família, meus projetos e tudo o que eu havia construído dependiam, naquele instante, da vontade de um criminoso. Raiva de compreender que eu poderia fazer tudo corretamente, trabalhar, cuidar dos meus filhos, respeitar as pessoas e, mesmo assim, ser eliminado por alguém que jamais havia visto.
Pensei em mudar de país? Não.
Não porque eu seja mais corajoso do que quem decidiu partir, nem porque considere aceitável conviver com a violência. Não pensei em ir embora porque compreendi que aquilo poderia ter acontecido em muitos outros lugares do mundo. Acreditar que assaltos, homicídios, ataques aleatórios e criminosos armados existem apenas no Brasil é uma ilusão confortável vendida por fotografias turísticas, relatos selecionados e comparações superficiais. Existem países mais seguros, evidentemente, assim como existem políticas públicas mais eficientes e sociedades mais organizadas. Mas não existe território completamente protegido da maldade humana.
Mudar de país pode alterar probabilidades, oferecer novas oportunidades e melhorar determinadas condições de vida. O que não pode fazer é conceder imunidade contra a violência, a intolerância, o crime ou a irracionalidade. Nenhuma fronteira internacional separa definitivamente as pessoas boas das pessoas más.
Depois daquela noite, algo em mim certamente mudou. Talvez uma parte da minha confiança tenha ficado presa naquele painel junto com a bala. Desde então, carrego uma divisão interna que consigo medir de maneira quase matemática: 51% de mim continua acreditando na humanidade e no Brasil, enquanto os outros 49% observam tudo com profunda incredulidade.
É uma diferença pequena, quase um empate. Mas, felizmente, os 51% ainda vencem.
São eles que me fazem continuar criando, trabalhando, construindo, ajudando e tentando mudar alguma coisa. Não preciso relacionar aqui o que faço ou transformar minha trajetória em inventário de virtudes. Quem me conhece sabe o meu legado, conhece meus projetos e sabe quanto da minha vida foi dedicado a iniciativas voltadas às pessoas, à educação, à tecnologia, à comunicação e à construção de oportunidades.
A bala não atingiu meu coração. Talvez por isso ela também não tenha conseguido destruir aquilo que ainda existe dentro dele.
Não permaneci no Brasil por conformismo, medo de partir ou falta de oportunidades. Permaneci porque ainda acredito que abandonar um problema não é a única maneira de enfrentá-lo. Algumas pessoas mudam de país para buscar uma vida melhor, e possuem todo o direito de fazê-lo. Outras permanecem e tentam tornar melhor o país em que vivem.
Eu escolhi ficar.
Não porque o Brasil seja perfeito, seguro ou justo. Ele está muito longe disso. Fiquei porque, apesar da raiva, da impotência e dos 49% de descrença, a maior parte de mim ainda acredita que este país pode mudar. Enquanto esses 51% continuarem vivos, continuarei tentando.
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