Há um comportamento curioso, e cada vez mais comum, entre determinados brasileiros que decidem viver no exterior. Eles não simplesmente mudam de país. Eles anunciam uma fuga histórica, quase uma libertação de um território amaldiçoado.
Nas redes sociais, apresentam-se como sobreviventes de uma grande tragédia chamada Brasil.Publicam fotografias diante de ruas limpas, estações de metrô, supermercados organizados e paisagens cinematográficas. Contam que agora podem usar o celular na rua, caminhar à noite, comprar produtos importados e conviver com pessoas “educadas”. A cada postagem, o Brasil é reduzido a violência, corrupção, pobreza, impostos e incompetência.
Não basta dizer que encontraram uma vida melhor. É preciso proclamar que escaparam de uma vida inferior.
Em pouco tempo, o emigrante transforma-se em consultor internacional, economista, cientista político, especialista em segurança pública e professor de civilização. Depois de alguns meses morando em um bairro de Lisboa, Dublin, Sydney, Toronto ou Miami, já se considera qualificado para explicar por que o Brasil nunca dará certo.
O passaporte ainda é brasileiro, a formação foi obtida no Brasil, a experiência profissional começou no Brasil, os pais continuam no Brasil, os amigos ficaram no Brasil e, muitas vezes, o dinheiro que permitiu a mudança também saiu do Brasil.
Mas a narrativa precisa esconder esses detalhes.
Para que a personagem funcione, é necessário fingir que o novo cidadão nasceu sozinho no aeroporto internacional, carregando apenas uma mala, um celular e uma sabedoria superior.
O emigrante não quer apenas partir, ele quer ser aplaudido
Mudar de país é um direito legítimo. Milhões de pessoas emigram por segurança, oportunidades profissionais, educação, estabilidade econômica, relacionamentos ou simplesmente pelo desejo de experimentar outra cultura. Não há nada de errado nisso. O problema começa quando uma decisão particular é transformada em certificado de superioridade moral.
O sujeito não diz apenas que foi embora. Ele precisa explicar que quem ficou é acomodado. Não afirma somente que está feliz. Precisa concluir que todos os que permanecem no Brasil são infelizes, mesmo quando ainda não perceberam isso. Não conta apenas que conseguiu uma oportunidade. Insinua que os demais não tiveram coragem suficiente para seguir o mesmo caminho.
Cria-se uma espécie de heroísmo migratório de rede social.
Trabalhar doze horas por dia no exterior vira “resiliência”. Dividir um apartamento minúsculo com desconhecidos transforma-se em “minimalismo”. Fazer serviços que a pessoa jamais aceitaria realizar no Brasil passa a ser “humildade para recomeçar”. Enfrentar jornadas exaustivas recebe o nome de “meritocracia”.
No Brasil, as mesmas condições seriam denunciadas como precarização do trabalho.
Aparentemente, a exploração torna-se uma experiência de desenvolvimento pessoal quando acontece em moeda estrangeira.
Não se trata de diminuir o trabalho braçal, que é honesto e digno em qualquer lugar. Trata-se de expor uma incoerência evidente: atividades desprezadas no Brasil são romantizadas quando realizadas em países ricos.
O problema nunca foi o trabalho. Era o CEP.
A vida perfeita que só existe enquanto a câmera está ligada
As redes sociais transformaram a emigração em produto.
Cursos, consultorias, canais, mentorias e perfis especializados vendem a ideia de que basta comprar uma passagem para abandonar definitivamente todos os problemas da existência. O país estrangeiro deixa de ser uma sociedade complexa e vira um parque temático de qualidade de vida.
Não aparecem nas fotografias a solidão, a saudade, a xenofobia, a dificuldade de validar diplomas, o custo da moradia, a precariedade do visto, a distância da família, a perda de posição profissional e o medo de ser obrigado a voltar.
Também não aparecem os bairros problemáticos, os crimes, as crises econômicas, os conflitos políticos e as deficiências dos serviços públicos locais. Para preservar a narrativa, o melhor bairro estrangeiro é comparado à pior periferia brasileira.
Isso não é análise. É publicidade.
Toda vantagem do país escolhido é apresentada como regra. Todo problema é tratado como exceção. No caso do Brasil, faz-se exatamente o contrário: todo problema é considerado essência nacional e toda qualidade é descartada como acidente estatístico.
A rede social não mostra o exterior como ele é. Mostra o exterior como o emigrante precisa que ele seja para justificar publicamente sua decisão.
Afinal, depois de publicar dezenas de textos afirmando que encontrou o paraíso, admitir dificuldades pareceria uma derrota.
É por isso que muitas pessoas sustentam a ficção até o instante em que a realidade se torna impossível de esconder.
Quando começa a guerra, o “cidadão do mundo” redescobre o Brasil
Então ocorre um terremoto.
Uma pandemia fecha aeroportos.
Uma guerra começa.
Mísseis atravessam o céu.
Fronteiras são bloqueadas.
Voos comerciais são cancelados.
O sistema bancário para de funcionar.
O país escolhido deixa de ser o cenário impecável das redes sociais e passa a mostrar aquilo que sempre foi: uma nação real, sujeita a crises, conflitos, catástrofes e decisões políticas.
Nesse momento, acontece uma transformação extraordinária.
O “cidadão do mundo” volta a ser brasileiro.
Desaparecem as postagens dizendo que o Brasil não presta. Entram em cena os vídeos com voz embargada, olhos assustados e pedidos urgentes:
“Somos brasileiros e precisamos de ajuda.”
A bandeira nacional reaparece. O Itamaraty passa a ser marcado nas publicações. O governo brasileiro, antes descrito como inútil, passa a ser cobrado a cada hora. Deputados, senadores, jornalistas, embaixadas, consulados e autoridades são acionados.
A pátria que servia como alvo de piadas transforma-se em endereço de emergência.O Brasil, aquele país que supostamente não oferecia absolutamente nada, precisa agora enviar diplomatas, negociar corredores humanitários, obter autorizações de sobrevoo, mobilizar militares, disponibilizar equipes médicas e colocar uma aeronave no ar.
Tudo para buscar quem havia anunciado que jamais voltaria.
A pandemia e os milhares que descobriram que ainda tinham pátria
Durante a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, fronteiras foram fechadas, companhias aéreas cancelaram rotas e milhares de brasileiros ficaram retidos em outros países.
Segundo dados divulgados pelo Governo Federal em abril de 2020, aproximadamente 17,5 mil brasileiros já haviam regressado com apoio das embaixadas e dos consulados. Entre os países com maior número de pessoas auxiliadas estavam Portugal, Peru, México, Argentina, África do Sul, Índia e República Dominicana.
O Itamaraty chegou a criar um Grupo Especial de Crise para atender brasileiros impedidos de retornar.
Muitos estavam no exterior por turismo, intercâmbio, trabalho temporário ou residência. Evidentemente, não se pode afirmar que todos criticavam o Brasil ou que todos exigiram passagens gratuitas. O caso, entretanto, demonstrou uma verdade incômoda: quando o sistema internacional entra em colapso, o documento mais importante pode voltar a ser aquele passaporte brasileiro desprezado nas postagens.
O país considerado atrasado precisou organizar o retorno de cidadãos espalhados pelo mundo desenvolvido.
Naquele momento, não importava quantas fotografias haviam sido publicadas diante da Torre Eiffel, do Big Ben ou da Times Square. Com os aeroportos fechados, todos voltaram a procurar a mesma bandeira.
A guerra da Ucrânia e o KC-390 brasileiro
Em fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia, desencadeando uma guerra de grandes proporções. Brasileiros que viviam na região precisaram escapar por terra e chegar a países vizinhos.
O Brasil enviou uma aeronave KC-390 Millennium da Força Aérea Brasileira à Polônia. A chamada Operação Repatriação retirou 43 brasileiros, além de 19 ucranianos, cinco argentinos e um colombiano. Animais de estimação também foram transportados.
O mesmo país frequentemente apresentado como incapaz de realizar qualquer coisa mobilizou uma das aeronaves militares mais modernas produzidas por sua indústria, atravessou o Atlântico e trouxe cidadãos de volta em segurança.
Curiosamente, quando existe uma guerra, ninguém pergunta se a tripulação da FAB veio de um país “sem futuro”.
Ninguém recusa o assento porque ele foi pago pelo contribuinte brasileiro.
Ninguém diz que prefere aguardar a ajuda daquele país perfeito que aparecia nas fotografias do Instagram.
Na hora do perigo, a ideologia perde espaço para o instinto de sobrevivência.
E o brasileiro que passou anos ridicularizando o país descobre que a bandeira verde e amarela fica muito bonita pintada na fuselagem de um avião de resgate.
Israel, Gaza e a Operação Voltando em Paz
Em outubro de 2023, os ataques do Hamas contra Israel e a reação militar israelense produziram uma nova emergência no Oriente Médio.
O Brasil iniciou a Operação Voltando em Paz, envolvendo a Presidência da República, o Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Defesa, a Força Aérea Brasileira e diferentes órgãos públicos.
Foram realizados voos para retirar brasileiros e familiares de Israel. Outros grupos ficaram retidos na Faixa de Gaza, dependendo da abertura da passagem de Rafah e de negociações diplomáticas complexas para deixar a região.
Ao todo, a operação repatriou aproximadamente 1.560 pessoas em doze voos da FAB e um voo comercial, incluindo cidadãos retirados de Israel, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Foram dias de entrevistas, vídeos, apelos e cobranças públicas. Famílias pediam providências imediatas. Brasileiros mostravam o barulho das explosões, a falta de segurança e o medo de não conseguir sair.
O pedido de ajuda era legítimo. Pessoas em uma zona de guerra precisam ser protegidas, independentemente de suas opiniões políticas ou de qualquer comentário anterior sobre o Brasil.
Mas o episódio expôs novamente a contradição.
Quando tudo está tranquilo, alguns brasileiros tratam a nacionalidade como um inconveniente. Quando as bombas começam a cair, ela se transforma em argumento prioritário:
“Eu sou brasileiro, o Brasil precisa me retirar daqui.”
O Brasil que “não serve para nada” passa a servir como negociador diplomático, operador logístico, equipe médica, serviço de acolhimento e companhia aérea de emergência.
O conflito no Líbano e a Operação Raízes do Cedro
Em 2024, a escalada do conflito entre Israel e o Hezbollah agravou a situação no Líbano, país que abriga uma das maiores comunidades brasileiras no Oriente Médio.
O Governo Federal organizou a Operação Raízes do Cedro para retirar brasileiros e familiares da zona de conflito. Em doze voos, a operação transportou mais de 2,5 mil pessoas, além de animais de estimação.
O trabalho exigiu a utilização de aeronaves da FAB, coordenação entre órgãos públicos, equipes de saúde, assistência social, acolhimento e articulação diplomática.
A operação também revelou algo frequentemente esquecido por quem trata o Estado apenas como inimigo: resgatar cidadãos em outro país não é como chamar um carro por aplicativo.
É preciso monitorar a segurança dos aeroportos, definir rotas, negociar autorizações, abastecer aeronaves, organizar listas de passageiros, verificar documentos, preparar atendimento médico e criar estruturas de recepção no Brasil.
Enquanto alguns gravam vídeos de poucos segundos perguntando por que o avião ainda não chegou, centenas de profissionais trabalham para que esse avião possa decolar, pousar, embarcar e regressar em segurança.
A urgência de quem está em perigo é compreensível.
A ideia de que o resgate é uma obrigação simples, automática e ilimitada não é.
O consulado não é uma agência de viagens gratuita
Existe ainda uma confusão conveniente entre assistência consular e passagem gratuita.
Consulados e embaixadas podem prestar orientações, emitir documentos, contatar familiares, acompanhar situações de prisão, auxiliar vítimas de violência, fornecer informações sobre serviços locais e atuar em emergências.
Isso não significa que o governo brasileiro seja obrigado a pagar todas as despesas particulares de quem decidiu morar ou viajar para o exterior.
O próprio Itamaraty esclarece que não existe obrigação legal de o Estado custear a passagem de retorno de todo brasileiro. A repatriação com recursos públicos é excepcional e pode ser concedida a pessoas comprovadamente desvalidas, conforme critérios específicos.
O consulado não é seguradora contra planejamento ruim.
Não existe garantia pública contra visto vencido, emprego perdido, curso cancelado, relacionamento terminado, investimento fracassado ou passagem de volta que a pessoa decidiu não comprar.
Quem emigra assume riscos e responsabilidades. Isso inclui estudar a situação política do destino, contratar seguro, manter documentos válidos, criar uma reserva financeira, conhecer rotas de saída e acompanhar alertas das autoridades.
Liberdade sem responsabilidade tem outro nome: adolescência.
Alguns desejam a liberdade de abandonar o país, insultá-lo e declarar independência absoluta, mas preservando o direito de enviar a conta ao Brasil quando a experiência internacional dá errado.
É uma independência curiosa, com serviço de busca incluído.
Não se deve negar socorro, mas também não se deve premiar a hipocrisia
É preciso estabelecer uma distinção fundamental.
Um país civilizado não abandona seus cidadãos em uma guerra porque eles fizeram comentários arrogantes nas redes sociais. O direito à assistência não deve depender de patriotismo performático, posição política ou gratidão prévia.
Se houver condições operacionais, diplomáticas e jurídicas, o Brasil deve auxiliar seus cidadãos.
O Estado não pode agir por vingança.
A sociedade, no entanto, tem todo o direito de apontar a incoerência.
É possível defender o resgate de brasileiros no exterior e, simultaneamente, criticar aqueles que transformam o Brasil em motivo de desprezo enquanto tudo vai bem, mas exigem proteção imediata quando surge o perigo.
O socorro é um direito em determinadas circunstâncias.
A admiração não é.
A FAB pode oferecer um assento. O público não é obrigado a oferecer aplausos.
A conta que os trouxas que ficaram pagam
Resgates internacionais não são feitos com patriotismo abstrato, solidariedade digital ou discursos emocionados. Eles são realizados com dinheiro público.
Enquanto o brasileiro que ficou trabalha, paga impostos e tenta sobreviver aos mesmos problemas usados por alguns emigrantes para ridicularizar o país, uma parte desses recursos financia aeronaves, combustível, manutenção, tripulações, diárias, alimentação, atendimento médico, tarifas aeroportuárias, transporte terrestre, hospedagem emergencial, negociações diplomáticas e estruturas de recepção.
A conta não desaparece porque o passageiro não recebeu um boleto. Ela apenas foi entregue ao contribuinte.
Os valores da pandemia representam despesas informadas pelo Itamaraty. Nos casos de Israel e do Líbano, os números correspondem a créditos extraordinários autorizados, não necessariamente ao custo final integralmente executado. Mesmo assim, revelam a dimensão financeira necessária para colocar uma operação desse porte no ar.
Somando o gasto informado na pandemia aos créditos extraordinários autorizados para as operações no Oriente Médio, chegamos a mais de R$ 195 milhões em recursos públicos mobilizados. E essa soma sequer inclui um valor consolidado para a missão realizada na Ucrânia.
É importante deixar claro que esse cálculo não transforma cada passageiro em alguém que recebeu individualmente R$ 30 mil ou R$ 32 mil. A maior parte do dinheiro paga a estrutura coletiva da operação: combustível de aviação, manutenção e suprimentos das aeronaves, tarifas aeroportuárias, serviços em solo, apoio às tripulações, diárias, alimentação, atendimento médico, comunicações, deslocamentos e logística nacional e internacional.
Também seria intelectualmente desonesto afirmar que todas as pessoas resgatadas haviam abandonado o Brasil, criticado o país ou agido com irresponsabilidade. Havia turistas, crianças, trabalhadores, religiosos, residentes, pessoas em situação de vulnerabilidade e famílias surpreendidas por acontecimentos imprevisíveis.
Mas também existe o personagem central desta discussão: aquele que passou anos chamando o Brasil de lixo, tratando quem ficou como fracassado e exibindo sua suposta superioridade internacional. Quando a crise chega, ele não procura uma companhia aérea, não consulta sua reserva financeira e não apresenta o seguro que deveria ter contratado. Ele grava um vídeo, marca o Itamaraty e pergunta por que o avião da FAB ainda não chegou.
Para esse personagem, o Brasil é ruim para viver, mas excelente para pagar a passagem de volta.
A liberdade de emigrar é individual. A conta do resgate, entretanto, é coletiva.
Quem ficou paga combustível. Quem ficou paga manutenção. Quem ficou paga a tripulação. Quem ficou paga as tarifas. Quem ficou paga a estrutura diplomática. Quem ficou paga até o atendimento de quem, dias antes, dizia nas redes sociais que o Brasil não prestava para nada.
Os “covardes”, “acomodados” e “sem coragem” que permaneceram no país transformam-se, de repente, nos financiadores involuntários do heroísmo internacional alheio.Não se trata de defender que o Brasil abandone cidadãos em zonas de guerra. O Estado deve proteger vidas sempre que houver condições jurídicas, diplomáticas e operacionais. Trata-se de lembrar que socorro público não brota espontaneamente da pista de um aeroporto.
Alguém paga.
E quase sempre quem paga é justamente o trouxa que ficou.
O Brasil não é o inferno, e o exterior não é o paraíso
O Brasil possui problemas profundos. A violência é real. A desigualdade é brutal. A corrupção destrói recursos. A burocracia sufoca empresas. A educação pública enfrenta enormes desafios. Milhões de brasileiros têm razões legítimas para buscar oportunidades em outros países.
Nada disso deve ser escondido.
Mas também não existe justificativa para transformar uma nação de mais de duzentos milhões de pessoas em caricatura.
O Brasil possui um sistema universal de saúde, universidades reconhecidas, capacidade industrial, produção científica, agricultura avançada, instituições diplomáticas respeitadas, uma força aérea capaz de realizar operações internacionais e uma sociedade que, apesar de todas as dificuldades, recebe de volta até aqueles que passaram anos dizendo que sentiam vergonha dela.
Da mesma forma, países desenvolvidos possuem criminalidade, desigualdade, racismo, crises habitacionais, tensões políticas, violência, desemprego e sistemas públicos imperfeitos.
A diferença é que os problemas estrangeiros raramente aparecem no enquadramento cuidadosamente escolhido das redes sociais.
O paraíso internacional existe principalmente no período compreendido entre o desembarque e a primeira grande crise.
Depois disso, começa a vida real.
Vá embora, mas leve um pouco de honestidade na mala
Ninguém precisa permanecer no Brasil por obrigação moral.
Vá embora se encontrar uma oportunidade melhor. Construa uma carreira, aprenda outro idioma, conheça outras culturas, forme uma família e seja feliz onde desejar.
Só não transforme a mudança em palanque.
Não trate os que ficaram como frac
assados. Não compare realidades de forma desonesta. Não esconda as dificuldades do exterior para sustentar uma personagem. Não faça da crítica ao Brasil uma estratégia de engajamento.
E, sobretudo, não declare que o país é completamente inútil enquanto mantém o número do consulado salvo no telefone para alguma emergência.
Porque terremotos não leem postagens motivacionais.
Guerras não respeitam bairros nobres.
Pandemias não perguntam quanto alguém ganha.
Crises políticas não se importam com o número de seguidores.
Quando a realidade chega, a fotografia perde o filtro. O “cidadão global” procura o passaporte brasileiro, liga para a embaixada e passa a acompanhar ansiosamente a rota de uma aeronave da FAB.
Nesse momento, o Brasil deixa de ser “aquele país”.
Volta a ser “o meu país”.
A crítica ao Brasil é necessária. A vontade de sair é legítima. O pedido de socorro pode ser absolutamente justo.
O que não é aceitável é a arrogância de quem cospe na bandeira em tempos de tranquilidade e se enrola nela quando começa o bombardeio.
O Brasil não deveria abandonar nenhum de seus filhos.
Mas alguns de seus filhos poderiam, ao menos, ter a dignidade de não fingir que são órfãos enquanto tudo está bem.
Referências bibliográficas
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