Muito se fala, corretamente, sobre a saúde mental dos funcionários. Nos últimos anos, empresas passaram a discutir burnout, ansiedade, depressão, assédio moral, segurança psicológica, jornadas excessivas, ambientes tóxicos e riscos psicossociais. Esse avanço é necessário, porque nenhuma organização deveria construir resultados destruindo emocionalmente as pessoas que trabalham nela. No Brasil, inclusive, a atualização da NR-1 reforçou a necessidade de as empresas incorporarem fatores de risco psicossociais ao gerenciamento de riscos ocupacionais, consolidando uma preocupação que já vinha crescendo no mundo inteiro. O problema é que essa conversa, embora importante, costuma parar em uma fronteira curiosa:
Fala-se muito da saúde mental do empregado, fala-se do gestor, fala-se do clima organizacional, mas quase ninguém fala da saúde mental do empreendedor, do empresário, do dono da pequena empresa, daquele sujeito que acorda todos os dias sabendo que, se algo der errado, a conta final provavelmente cairá no colo dele.
Essa omissão revela uma espécie de preconceito silencioso. Para parte da sociedade, empresário não sofre, empresário apenas explora, calcula, demite, lucra e reclama de imposto. Essa caricatura pode até servir para discursos inflamados, mas está muito distante da realidade de milhões de pequenos e médios empresários. Estou falando da dona do restaurante que precisa decidir se paga o aluguel ou compra estoque, do dono da oficina que usa limite pessoal para manter funcionários, do fundador de uma clínica que passa a madrugada refazendo fluxo de caixa, do pequeno industrial que vende patrimônio para pagar fornecedores, do comerciante que não tira férias há anos porque a empresa depende dele para tudo.
Quando um funcionário entra em sofrimento emocional, a resposta correta é perguntar como a empresa pode ajudar. Quando um empresário entra em sofrimento emocional, a resposta costuma ser: “ele escolheu empreender”. Como se empreender fosse uma renúncia automática ao direito de adoecer.
O caso de Jody Sherman, controlador da Ecomom, nos Estados Unidos, tornou-se um dos exemplos mais citados dessa discussão. Em 2013, Sherman morreu por suicídio, e sua morte provocou um debate no ecossistema de startups sobre depressão, isolamento, pressão financeira, fracasso e a cultura empresarial que celebra vencedores enquanto empurra os derrotados para o silêncio. A revista Inc publicou uma reportagem marcante sobre o preço psicológico do empreendedorismo, mostrando como fundadores muitas vezes convivem com ansiedade, depressão e sensação permanente de inadequação, enquanto precisam aparentar confiança para investidores, funcionários, clientes e familiares. Esse caso não deve ser usado de forma simplista, porque sofrimento mental e suicídio possuem causas complexas, mas ele expõe uma verdade incômoda: por trás de muitas empresas existe uma pessoa tentando sustentar uma fachada de força enquanto desmorona por dentro.
Para mim, essa discussão não é apenas teórica ou baseada em casos distantes. Em 2023, um amigo, pequeno empresário, tirou a própria vida em meio a graves problemas financeiros em sua empresa. Por respeito à sua memória e à sua família, não cabe aqui expor detalhes, nem reduzir uma decisão tão extrema a uma única causa. O suicídio é sempre um fenômeno complexo. Mas eu acompanhei de perto o peso que as dificuldades financeiras, a responsabilidade pelo negócio e a sensação de não encontrar uma saída exerceram sobre ele. Sua morte tornou essa questão dolorosamente concreta para mim.
Quando uma empresa enfrenta uma crise, vemos os números, as dívidas, os impostos atrasados, os fornecedores pressionando e a folha de pagamento vencendo. Raramente enxergamos a pessoa que está por trás de tudo isso, tentando preservar empregos, proteger a família, manter a própria reputação e aparentar segurança enquanto perde, pouco a pouco, a esperança. Muitas vezes, o empresário acredita que não pode demonstrar fraqueza, porque todos esperam que ele tenha respostas. Assim, sofre em silêncio justamente no momento em que mais precisa falar.
Não sei se uma conversa, uma rede de apoio ou uma intervenção profissional teria mudado o desfecho daquele caso. Ninguém pode fazer essa afirmação com segurança. Mas sei que não podemos continuar tratando o sofrimento do pequeno empresário como simples consequência de uma escolha profissional. Quando alguém sente que a falência do negócio representa também o fim da própria dignidade, da identidade e da possibilidade de recomeçar, já não estamos diante apenas de um problema financeiro. Estamos diante de uma vida em risco.
Outro exemplo importante vem da pesquisa conduzida por Michael Freeman e colaboradores, frequentemente citada quando se discute saúde mental entre empreendedores. O estudo “Are Entrepreneurs Touched with Fire?” investigou a prevalência de condições relacionadas à saúde mental entre empreendedores e encontrou incidência relevante de depressão, ansiedade, TDAH, uso de substâncias e outras condições psicológicas no grupo pesquisado. Evidentemente, nenhuma pesquisa isolada autoriza generalizações irresponsáveis, mas ela ajuda a iluminar um ponto essencial:
Epreendedores estão expostos a fatores específicos de risco, como incerteza financeira, isolamento decisório, jornadas prolongadas, pressão por desempenho, dificuldade de separar vida pessoal e empresa, além da tendência de transformar o sucesso ou fracasso do negócio em medida direta do próprio valor pessoal.
A pandemia de COVID-19 mostrou isso de maneira brutal. Milhares de empresários brasileiros viram suas receitas desaparecerem de uma semana para outra, enquanto salários, aluguéis, impostos, boletos, fornecedores e financiamentos continuavam existindo. Restaurantes fechados por restrições sanitárias, academias paradas, escolas particulares perdendo alunos, pequenos comércios sem circulação de clientes, clínicas adiando atendimentos, empresas familiares sem caixa para atravessar meses de incerteza. Em muitos casos, o empresário foi o último a receber, quando recebeu. E mesmo assim precisou aparecer diante da equipe com algum nível de serenidade, porque se o dono demonstrasse desespero, a empresa inteira poderia entrar em pânico. Essa é uma solidão pouco compreendida:
O funcionário pode procurar o gerente, o gerente pode procurar o diretor, o diretor pode procurar o presidente, mas o dono da empresa muitas vezes não tem para quem dizer, com absoluta sinceridade, “eu não sei se consigo pagar a folha este mês”.
Também precisamos olhar para o Brasil real, não apenas para o empresário de palestra motivacional ou para o bilionário de capa de revista. Segundo informações divulgadas pelo Sebrae, as micro e pequenas empresas representam a imensa maioria dos negócios no país e têm papel essencial na geração de empregos formais. Isso significa que a saúde mental de quem empreende não é apenas uma questão individual, é também uma questão econômica e social.
Quando um pequeno empresário entra em colapso, não sofre apenas ele. Sofrem a família, os funcionários, os fornecedores, os clientes e, muitas vezes, toda uma rede local que dependia daquele negócio.Existe ainda o exemplo dos fundadores de grandes empresas, que mesmo cercados de dinheiro, estrutura e reconhecimento público, frequentemente relatam jornadas extremas e custos pessoais altíssimos. Elon Musk já falou publicamente sobre períodos em que dormia na fábrica da Tesla e enfrentava semanas de trabalho exaustivas durante fases críticas da empresa. Esse tipo de história costuma ser romantizado como prova de genialidade, dedicação e visão empreendedora, mas também deveria ser lido como alerta.
Quando trabalhar até o limite do corpo vira símbolo de virtude, criamos uma cultura doente, em que descansar parece fraqueza, pedir ajuda parece incompetência e viver minimamente bem parece falta de ambição. O corpo humano não respeita valuation, o cérebro não se curva ao faturamento e o sistema nervoso não entende que a reunião com investidores é importante.
O problema fica ainda mais grave porque, para muitos empreendedores, a empresa não é apenas uma fonte de renda. Ela é identidade, reputação, patrimônio, história familiar, sonho, sacrifício e, muitas vezes, a obra de uma vida inteira.
Quando um funcionário perde o emprego, enfrenta uma situação dura, mas ainda pode procurar outra empresa e reconstruir seu caminho profissional. Quando um empresário perde uma empresa construída durante vinte ou trinta anos, ele pode sentir que perdeu também sua identidade, sua credibilidade, sua posição social, sua segurança financeira e parte do futuro da própria família.
A falência, para quem olha de fora, é um evento jurídico ou econômico. Para quem vive por dentro, pode ser uma devastação emocional.
Há ainda um paradoxo cruel:
Quanto mais responsável é o empresário, maior tende a ser o peso emocional. O empresário irresponsável simplesmente atrasa salários, abandona dívidas, enrola fornecedores e desaparece. O empresário responsável sofre porque sabe o nome das pessoas, conhece suas histórias, sabe quem tem filho pequeno, quem acabou de financiar uma casa, quem depende daquele salário para pagar remédios, escola ou aluguel. Quando precisa cortar custos, não está apenas mexendo em uma planilha. Está interferindo diretamente na vida de pessoas reais. Isso não significa transformar empresários em santos, nem negar que existam empregadores abusivos, exploradores e incompetentes. Significa apenas reconhecer que existe uma multidão de empresários decentes adoecendo em silêncio enquanto tenta manter negócios vivos em um ambiente econômico, tributário e burocrático extremamente pesado.
É curioso observar que a própria legislação começa a exigir mais atenção das empresas aos riscos psicossociais dos trabalhadores, mas quase ninguém pergunta quem observa os riscos psicossociais do empresário que terá de implementar tudo isso. Quem avalia o dono da pequena empresa endividada, que não dorme direito há meses? Quem percebe que ele está bebendo mais, tomando remédios sem orientação, ficando agressivo, isolado, apático ou desesperado? Quem pergunta ao empreendedor se ele tem com quem conversar antes que ele chegue ao limite? Normalmente, ninguém.
A imagem social do empresário ainda é a de alguém que deve aguentar tudo, resolver tudo e, de preferência, não reclamar.Cuidar da saúde mental do empreendedor não é mimimi empresarial, não é defesa corporativista e não é tentativa de colocar o empresário acima dos funcionários. É uma questão de maturidade. Empresas saudáveis precisam de pessoas saudáveis em todos os níveis. Funcionários adoecidos destroem ambientes de trabalho, gestores adoecidos tomam decisões ruins, líderes adoecidos criam culturas tóxicas e empresários adoecidos podem destruir, sem perceber, a própria empresa que tentam salvar.
Uma organização cujo fundador não consegue tirar quinze dias de férias não tem um líder indispensável, tem um problema estrutural. Uma empresa que depende exclusivamente da força emocional de uma única pessoa para continuar existindo está permanentemente ameaçada.
Por isso, associações comerciais, sindicatos patronais, entidades empresariais, aceleradoras, incubadoras, conselhos consultivos e grupos de empresários deveriam tratar esse tema com muito mais seriedade. Não com palestras superficiais sobre resiliência, nem com frases motivacionais de auditório, mas com espaços reais de conversa, orientação, apoio e troca entre pares. Empresários precisam poder dizer “estou endividado”, “estou com medo”, “não sei se consigo continuar”, “não durmo há semanas”, “não consigo conversar sobre isso com minha família”, sem serem imediatamente julgados como incompetentes. Talvez descobríssemos que muita gente aparentemente bem-sucedida está apenas sobrevivendo em silêncio.
Precisamos parar de escolher quem merece empatia. Defender a saúde mental dos funcionários não exige ignorar a saúde mental dos empresários. Proteger trabalhadores não exige demonizar empregadores. Reconhecer abusos empresariais não significa tratar todo empresário como explorador. Da mesma forma, reconhecer o sofrimento dos empreendedores não significa negar responsabilidades trabalhistas, relações de poder ou desigualdades. Uma sociedade minimamente madura deveria conseguir sustentar duas ideias ao mesmo tempo:
Empresas precisam cuidar das pessoas que trabalham nelas, e também precisamos cuidar das pessoas que constroem, financiam, administram e sustentam essas empresas.A saúde mental não pergunta se alguém recebe salário, pró-labore ou dividendos. Não consulta o cargo no LinkedIn, não verifica o CNPJ, não mede o patrimônio e não pergunta se a pessoa é empregado ou empregador. O sofrimento psicológico simplesmente acontece. Talvez esteja na hora de perguntarmos aos empresários aquilo que aprendemos, corretamente, a perguntar aos funcionários: “como você está?”. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: “você tem com quem conversar quando a resposta verdadeira é: eu não estou bem?”.
Fontes e referências
Michael A. Freeman et al., Are Entrepreneurs “Touched with Fire”?
Harvard Business Review, The Psychological Price of Entrepreneurship
Inc. Magazine, The Psychological Price of Entrepreneurship
Ministério do Trabalho e Emprego, NR-01, Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais
Tribunal Superior do Trabalho, Nova NR-1 amplia prevenção de riscos para a saúde mental nos ambientes de trabalho
Sebrae, Portal Sebrae
Agência Sebrae de Notícias, Dados e notícias sobre pequenos negócios
World Health Organization, Mental health at work
International Labour Organization, Mental health at work
CNN Business, Elon Musk on Tesla stress and extreme work periods