A sorte precisa encontrar você
Costumamos falar sobre sorte como se ela fosse uma visitante inesperada. Algo que chega sem avisar, escolhe algumas pessoas e simplesmente acontece.
Eu tenho pensado diferente.
Talvez uma parte importante daquilo que chamamos de sorte seja, na verdade, consequência dos ambientes que criamos, das escolhas que fazemos e, principalmente, dos pequenos riscos que aceitamos correr todos os dias.
Não estou falando de grandes apostas ou decisões irresponsáveis. Estou falando de pequenos movimentos que nos tiram do automático.
Puxar uma conversa no elevador do prédio onde você trabalha. Em vez de olhar para o celular, dizer “bom dia”. Perguntar: “Em qual andar você vai?”. Parece absolutamente banal. E é.
Mas aquela pessoa pode trabalhar em uma empresa que você gostaria de conhecer. Pode estar desenvolvendo um projeto que conversa com alguma coisa que você faz. Pode conhecer alguém que, meses depois, fará parte da sua história profissional ou pessoal.
Ou pode simplesmente responder “no décimo” e a conversa terminar ali.
E está tudo bem.
Porque criar oportunidades não significa transformar cada encontro em uma oportunidade de negócio. Significa estar disponível para aquilo que pode nascer de um encontro.
É aí que entra o risco.
Existe um pequeno risco em falar primeiro. Em se apresentar. Em aceitar um café. Em ir a um evento onde não conhecemos ninguém. Em sentar em outra mesa. Em mandar aquela mensagem. Em compartilhar uma ideia ainda não totalmente pronta. Em dizer “sim” para um convite que inicialmente recusaríamos.
São riscos pequenos, quase imperceptíveis. Mas eles têm uma característica poderosa: aumentam nossa superfície de contato com a vida.
Quando repetimos exatamente os mesmos hábitos, frequentamos os mesmos lugares, conversamos sempre com as mesmas pessoas e reagimos da mesma maneira, diminuímos as possibilidades de algo novo acontecer.
O previsível é confortável.
Mas poucas coisas extraordinárias nascem exclusivamente do previsível.
Talvez desenhar o próprio destino tenha menos a ver com controlar o futuro e mais com criar condições para que novas possibilidades apareçam.
Mudar o caminho até o trabalho.
Aceitar aquele almoço.
Fazer uma pergunta.
Escutar alguém com curiosidade genuína.
Entrar em um ambiente novo.
Apresentar duas pessoas que talvez tenham algo em comum.
Falar sobre aquilo que você está construindo.
Cada pequena atitude cria uma nova possibilidade. E uma possibilidade leva a outra, que encontra outra pessoa, que abre outra conversa, que talvez gere uma oportunidade que seria impossível prever no início.
Depois, olhando para trás, muitas vezes dizemos:
“Que sorte eu ter encontrado aquela pessoa.”
“Que sorte eu ter ido naquele lugar.”
“Que sorte aquela conversa ter acontecido.”
Mas será que foi apenas sorte?
Você estava lá.
Você aceitou o convite.
Você começou a conversa.
Você se permitiu sair alguns centímetros da sua zona conhecida.
A oportunidade encontrou você porque, de alguma maneira, você se colocou no caminho dela.
Isso também muda nossa relação com o destino. Não precisamos saber exatamente onde cada movimento vai nos levar. Podemos simplesmente criar ambientes mais férteis para que coisas boas aconteçam.
E talvez exista algo ainda mais bonito nisso: nem toda atitude precisa nascer de uma intenção estratégica.
Algumas das melhores conexões começam de maneira completamente despretensiosa.
Um “oi”.
Um sorriso.
Uma curiosidade.
Uma gentileza.
Uma conversa de elevador.
É justamente quando deixamos de enxergar todas as relações pelo resultado imediato que damos espaço para relações verdadeiras surgirem. E relações verdadeiras, muitas vezes, acabam produzindo resultados que nenhum planejamento seria capaz de antecipar.
Por isso, acredito cada vez menos em esperar a sorte chegar.
Prefiro criar movimento.
Mudar alguns hábitos.
Estar presente.
Circular.
Conversar.
Me permitir pequenos riscos.
Porque talvez a sorte não seja uma força misteriosa escolhendo quem será beneficiado.
Talvez sorte seja também consequência da quantidade de possibilidades que criamos para nós mesmos.
A sorte precisa encontrar você.
E, para isso, você precisa estar onde ela possa acontecer.
Francesca Di Pasquale
Desenvolvendo conexões que transformam relações em oportunidades.