Completei 60 anos no dia 5 de fevereiro. Sessenta anos de vida, quarenta e oito deles vividos com consciência real do mundo.
Digo isso porque, aos 12 anos, algo mudou. Não foi um evento específico, foi um despertar. Foi quando deixei de apenas existir para começar a observar, questionar, comparar, entender o jogo da vida, das pessoas, do trabalho, do poder e do tempo. A infância terminou cedo, como aconteceu com muita gente da minha geração.
Aos 12 anos eu já entendia que o mundo não era justo, que esforço não garantia recompensa automática e que ninguém vinha nos salvar. Isso moldou tudo o que veio depois.
Anos 70, o mundo analógico e a formação do caráter
Cresci em um Brasil analógico, duro, hierárquico. Não havia atalhos, não havia filtros, não havia edição. O erro custava caro e ensinava rápido.
Vi o respeito ser algo natural, não imposto. Vi a autoridade ser temida, mas também reconhecida. Vi o trabalho como obrigação, não como escolha emocional.
Era um tempo em que se aprendia observando, ouvindo e apanhando da realidade quando errava.
Anos 80, liberdade, excessos e identidade
Os anos 80 chegaram como um choque cultural. Liberdade, música, rebeldia, experimentação. Foi uma década que moldou caráter e identidade.
Vi o surgimento da cultura pop global, da MTV, da estética, da comunicação em massa. Vi o nascimento da tecnologia doméstica, videogames, computadores rudimentares, tudo ainda inacessível, mas já prometendo mudança.
Foi uma época de exageros, mas também de sonhos grandes. Acreditávamos no futuro.
Anos 90, o mundo acelera
Os anos 90 foram o início da aceleração. Globalização, privatizações, internet chegando tímida, mas revolucionária.
Vi profissões nascerem e morrerem. Vi empresas crescerem rápido e desaparecerem mais rápido ainda. Vi o discurso da meritocracia ganhar força, mesmo já mostrando suas falhas.
Foi quando percebi que estabilidade era uma ilusão e adaptação seria a verdadeira habilidade do futuro.
Anos 2000, a internet muda tudo
A partir dos anos 2000, o mundo nunca mais foi o mesmo. A internet deixou de ser curiosidade e virou infraestrutura.
Vi o poder migrar, da indústria para a informação. Vi qualquer pessoa poder falar, mas nem todas terem algo a dizer. Vi conhecimento se tornar abundante e sabedoria, escassa.
Foi quando comecei a entender que sobreviver profissionalmente exigiria aprendizado contínuo, desapego e humildade intelectual.
Anos 2010, redes sociais e o teatro da vida
Os anos 2010 trouxeram algo novo e perigoso, a encenação constante.
Vi redes sociais transformarem pessoas em marcas. Vi a validação externa substituir o autoconhecimento. Vi opiniões rasas ganharem mais alcance do que ideias profundas.
Foi quando percebi que não bastava saber, era preciso filtrar, resistir ao ruído e preservar a própria identidade.
Anos 2020, ruptura total
A década atual chegou sem pedir licença. Pandemia, colapso de certezas, trabalho remoto, inteligência artificial, crises políticas, crises de sentido.
Vi gente perder tudo. Vi gente se reinventar. Vi discursos morais vazios e pragmatismo brutal.
E vi, principalmente, que experiência voltou a ter valor, não como nostalgia, mas como referência.
60 anos, ainda na ativa
Chegar aos 60 anos ainda na ativa não é sobre resistência física, é sobre lucidez mental.
É entender que o mundo muda, mas certos padrões humanos permanecem. É saber que tecnologia evolui, mas caráter não acompanha automaticamente. É reconhecer erros passados sem vergonha e acertos sem arrogância.
Não tenho mais pressa, mas tenho direção. Não tenho mais ilusões, mas tenho propósito. Não tenho mais medo do futuro, porque já vi o suficiente para saber que adaptação vence força.
O maior aprendizado
Em 48 anos de consciência ativa, aprendi que ninguém é indispensável, mas todos são responsáveis. Que trabalho dignifica, mas não define o valor humano. Que silêncio, muitas vezes, é mais inteligente que opinião. E que seguir aprendendo é o único jeito de continuar relevante.
Completar 60 anos não é um fim. É um ponto de observação mais alto.De onde dá para ver melhor o passado, compreender o presente e escolher com mais clareza o que realmente vale a pena levar para o futuro.
Dia 5 de fevereiro eu completei 60 anos. E sigo em movimento.