Nos últimos anos tornou-se comum ver, especialmente no LinkedIn, longos textos de despedida após uma demissão. O roteiro quase sempre se repete, a pessoa diz que “encerrou um ciclo”, afirma que o ambiente era tóxico, que a liderança era desmotivadora, que a empresa não valorizava ninguém. Até aí, tudo bem, ambientes ruins existem e ninguém é obrigado a romantizar sofrimento. O ponto que merece reflexão é outro:

Se o lugar era tão insuportável assim, por que essa pessoa permaneceu ali durante anos? Por que não buscou ativamente outra oportunidade enquanto estava empregada? 

Permanecer por tanto tempo em um ambiente supostamente tóxico também é uma escolha, muitas vezes consciente, seja por estabilidade, salário, comodidade ou medo do risco. E escolhas têm consequências, inclusive na narrativa que se constrói depois.

Existe algo profundamente incoerente em passar anos usufruindo do salário, da estrutura, dos aprendizados e das oportunidades de uma empresa e, no momento da saída, "cuspir publicamente no prato" que alimentou você todos os dias. Não se trata de defender empresas ruins ou líderes despreparados, trata-se de maturidade profissional e responsabilidade com a própria imagem.

O LinkedIn não é um diário terapêutico. É uma vitrine profissional. Quando alguém desempregado publica textos agressivos, ressentidos ou vingativos sobre antigos chefes e empresas, transmite muito mais sobre si do que sobre o local que critica.

Um recrutador, um gestor ou um futuro sócio pode ler aquilo e pensar, se essa pessoa fala assim de quem a empregou por anos, o que falará de mim no futuro?

Há ainda um ponto delicado, o discurso de vítima constante. Ambientes tóxicos existem, chefes ruins existem, eu mesmo já vivi isso. Aguentei situações difíceis no início da carreira por razões que hoje parecem quase ficção para muita gente.

No meu primeiro emprego, entre agosto de 1980 e maio de 1985, trabalhei como aprendiz do SENAI em uma grande empresa metalúrgica de autopeças, em Ribeirão Pires. Eu tinha 16 anos. Sim, 16. Naquele tempo isso não era ficção, era realidade. Hoje soa absurdo, naquela época era simplesmente a vida acontecendo.

Durante os primeiros 18 meses fiz o curso profissionalizante no SENAI de Santo André, cidade onde moro até hoje. Quando terminei, fui direto para a fábrica. Eu estava com sede de trabalho, com vontade de aplicar tudo o que tinha aprendido, orgulhoso por já ter uma profissão enquanto muita gente da minha idade ainda estava tentando entender o que fazer da vida.

E aí veio o choque de realidade.

Era início de 1982, ano da

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Foto encontrada na internet.

Os trabalhos que me deram não tinham absolutamente nada a ver com o que eu tinha estudado no SENAI. Nada. Zero. Frustração pura. Mas engoli seco. Naquele tempo, para jovens como eu, não havia muita escolha. Era pegar ou largar, e largar quase sempre significava coisa pior. Explico isso mais adiante.

Assim que terminei o SENAI, entrei imediatamente em um colégio técnico para estudar Eletrônica. Na época isso também era permitido. Eu tinha feito o curso de Eletricista de Manutenção, migrar para Eletrônica era o caminho natural. Todos os dias eu almoçava correndo para estudar. Não havia glamour, havia esforço.

Até que um belo dia meu chefe, esse ser iluminado, descobriu que eu estudava eletrônica à noite. O que fez? Incentivou? Orientou? Claro que não. Começou meu martírio em dobro. O sujeito passou a me perseguir deliberadamente. Se eu fosse relatar tudo o que vivi dos 16 aos 19 anos, isso aqui viraria um livro. Então vou resumir.

Todo trabalho complicado, e não falo tecnicamente, eu era o escolhido. Coisas que hoje renderiam processos milionários. Exemplos? Passar cabos de energia a seis metros de altura, equilibrado sobre uma calha de fios, com fornos de fundição embaixo de mim, soltando gases quentes o tempo todo. Instalação elétrica em laboratório de testes, ficando horas em subsolo com temperatura acima de 40 graus, para depois subir e trabalhar em ambientes a menos 10 graus. Tudo isso sem qualquer proteção adequada, sem EPIs, etc. Normalizado. Silencioso. Invisível. RH vendo isso? Inexistente.

Para completar, havia acordos sindicais coletivos estabelecendo piso salarial. Ninguém podia ganhar menos que aquele valor. Ninguém. Exceto eu. Durante quase cinco anos, ganhei menos que o piso. Sempre.

Quando completei 19 anos, cansado, exausto e já consciente do absurdo, fui questionar o chefe. Perguntei por que só eu ganhava menos. A resposta foi direta, cruel e pedagógica sobre o tipo de poder que alguns gostam de exercer:

Você trabalhará 20 anos aqui e nunca vai ter uma promoção ou um aumento de salário simplesmente PORQUE EU NÃO QUERO.

Nesse ponto, muitos que leem este relato podem se perguntar por que eu, que hoje critico pessoas que detonam suas antigas empresas publicamente, aguentei tudo isso. A resposta não é heroica, nem romântica. É histórica.

Naquele maravilhoso mundo da ditadura, que alguns lunáticos ainda defendem, jovens entre 16 e 18 anos eram praticamente descartáveis para o mercado formal. O motivo era simples, serviço militar. Nenhuma empresa queria contratar alguém que poderia ser convocado e ficar um ano fora. Oficialmente ninguém admitia isso. Na prática, todo mundo sabia.

No meu caso havia um agravante. Se eu ficasse desempregado, não conseguiria pagar o curso técnico. Meu pai não tinha condições. Sem trabalho, eu ficaria esperando o dia inteiro até obter o título de reservista, sem estudo, sem renda e sem perspectiva. Os tempos eram outros, as escolhas eram duras e as consequências, imediatas.

Assim que peguei meu título de reservista, tive aquela conversa final com o chefe e ouvi o que ouvi. O que fiz? Saí da empresa algumas semanas depois. Fiquei desempregado. E ponto.

Naquela época não existia esse teatro de “encerrei um ciclo”. Eu estava desempregado. Não havia internet, não havia LinkedIn, não havia textão catártico. Existia o Estadão, seus classificados e a necessidade urgente de trabalhar.

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Imagem obtida na Internet

Talvez seja exatamente por isso que hoje eu ache patético ver gente cuspindo no prato que comeu por anos, tentando reescrever a própria história para aliviar frustração. Sofrer em silêncio não é virtude. Mas transformar ressentimento em espetáculo público também não é coragem, é só imaturidade disfarçada de discurso bonito.

A diferença é que, quando entendi que não fazia mais sentido, procurei sair, não transformar minha dor em espetáculo público. Relatar uma experiência de forma madura, objetiva e sem ataques é muito diferente de buscar validação por meio da exposição negativa.

Usei aquela frase dura, dita pelo imbecil que mencionei antes, não como algo para me diminuir, mas como um dogma pessoal. Transformei aquilo em combustível. Ele tentou me impor um teto, eu usei como impulso para romper qualquer limite.

Os “20 anos” que aquele idiota planejou para mim foram radicalmente diferentes do que ele imaginava. Não fiquei preso, não fiquei pequeno, não fiquei amargurado. Trabalhei com pessoas completamente diferentes, em ambientes distintos, com culturas que me mostraram rapidamente uma verdade simples, mas que eu só aprenderia vivendo.

No meu segundo emprego, entendi algo fundamental, existem chefes, existem líderes e existem patifes. No primeiro emprego, eu só tinha conhecido o último tipo.
E essa diferença muda tudo.

Crítica construtiva é legítima. Alertar sobre práticas abusivas, de forma responsável e consciente, também é. O que se vê com frequência, porém, são desabafos emocionais travestidos de “reflexão profissional”, que na prática fecham portas em silêncio. O mercado observa, mesmo quando não comenta, mesmo quando não curte.

Encerrar um ciclo não é atacar o passado, é aprender com ele. Gratidão não significa concordar com tudo, significa reconhecer que aquela experiência, boa ou ruim, fez parte da sua trajetória. Quem realmente amadurece profissionalmente entende que reputação é construída todos os dias, inclusive nos momentos de frustração.

Antes de publicar um texto longo detonando a antiga empresa, vale uma pergunta simples:

Isso me aproxima ou me afasta do futuro que eu quero? 

Porque no mundo profissional, memória curta raramente é perdoada, mas ingratidão pública quase nunca é esquecida.

Pessoalmente agradeço a todos os poucos tiranos corporativos que conheci bem como a todos os inúmeros excelentes líderes que me deparei nesses 46 anos de atividade profissional.


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