Durante séculos, a humanidade tentou compreender a velhice. Hoje, talvez a pergunta mais urgente já não seja apenas por que envelhecemos, mas como organizaremos uma sociedade em que viver até idades avançadas será cada vez mais comum. A mudança parece sutil, mas é profunda. Durante boa parte da história, estudar a velhice significava observar um fenômeno que alcançava uma parcela relativamente pequena da população.
No século XXI, Geriatria e Gerontologia precisam responder a outra realidade: o envelhecimento tornou-se uma das grandes transformações demográficas do nosso tempo.
A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2030, uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais. Serão aproximadamente 1,4 bilhão de pessoas nessa faixa etária. Em 2050, serão cerca de 2,1 bilhões, incluindo aproximadamente 426 milhões com 80 anos ou mais. Cerca de 80% das pessoas idosas viverão em países de baixa e média renda.
No Brasil, essa transformação ocorre em velocidade impressionante. Segundo as projeções mais recentes do IBGE, a participação das pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023 e poderá alcançar 37,8% em 2070. A fecundidade, por sua vez, caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2023. Esses números permitem olhar para a história da Geriatria e da Gerontologia sob uma perspectiva particularmente interessante. Afinal, enquanto cientistas e profissionais construíam, ao longo dos séculos, um campo destinado a compreender o envelhecimento, a própria sociedade estava caminhando para se tornar progressivamente mais longeva.
Antes da Geriatria, já existia a pergunta sobre a velhice.
O interesse humano pelo envelhecimento antecede em muitos séculos o surgimento da Geriatria e da Gerontologia como campos científicos. A revisão histórica apresentada por Cintra e colaboradores em Retratos do Brasil: como estamos em 2025? – Geriatria e Gerontologia recupera registros que remontam à Antiguidade. O Corpus Hippocraticum, produzido entre os séculos V e IV a.C., relacionava o envelhecimento à perda gradual do calor corporal. Aristóteles também tentou explicá-lo a partir das concepções fisiológicas disponíveis em seu tempo, chegando a uma interpretação que aproximava velhice e doença.
Essa associação é particularmente interessante quando observada a partir do século XXI. Ainda hoje precisamos combater a ideia de que envelhecer e adoecer são sinônimos.
Galeno, entre os séculos II e III, ofereceu uma perspectiva diferente. Embora obviamente limitado pelo conhecimento médico de sua época, distinguiu a velhice da doença e defendeu que exercício, alimentação e moderação poderiam influenciar o modo de envelhecer. Essa abordagem, conhecida como “arte gerocômica”, atravessou períodos históricos e influenciou posteriormente a medicina islâmica, inclusive a obra de Avicena.
É interessante perceber a permanência de uma pergunta através de quase dois milênios: quanto do envelhecimento podemos modificar?
Mudaram radicalmente os instrumentos científicos para respondê-la, mas a pergunta permanece atual.
Quando a velhice se tornou objeto de ciência
O século XIX e o início do século XX representaram uma mudança decisiva. Em 1863, o médico Maclachlan defendeu a necessidade de conhecimento específico para estudar, diagnosticar e tratar doenças na velhice, reconhecendo inclusive diferenças na resposta aos medicamentos.
Poucas décadas depois, em 1903, o zoólogo e microbiologista russo Ilya Metchnikoff, então ligado ao Instituto Pasteur, empregou o termo Gerontologia ao defender a necessidade de um estudo científico da velhice e da morte.
A Gerontologia nascia com uma característica que permanece fundamental: sua abrangência ultrapassa a medicina. Ela procura compreender não somente mudanças biológicas, mas também transformações psicológicas, sociais e coletivas relacionadas ao envelhecimento.
Em 1909, o médico nova-iorquino Ignatz Leo Nascher propôs o termo Geriatria para designar o campo médico dedicado ao cuidado das pessoas idosas. A diferenciação conceitual começava, portanto, a ganhar forma: a Geriatria estruturava-se como especialidade médica; a Gerontologia, como campo multidimensional de estudo do envelhecimento.
Mas faltava transformar conhecimento em modelo assistencial. Essa mudança teria uma protagonista decisiva.
Marjory Warren e uma revolução que começou em uma enfermaria
Em 1935, na Grã-Bretanha, Marjory Warren assumiu uma enfermaria do West Middlesex County Hospital onde se encontravam centenas de pessoas idosas, muitas com contraturas, lesões por pressão, incontinência e importantes limitações funcionais.
Eram pacientes frequentemente considerados incuráveis.
Warren começou a avaliá-los sistematicamente, identificar potencial de recuperação, melhorar as condições ambientais e introduzir reabilitação. Seu trabalho contribuiu decisivamente para a criação de unidades geriátricas e para o reconhecimento da Geriatria como especialidade no Reino Unido.
Há uma mensagem extraordinariamente contemporânea nessa história. Marjory Warren demonstrou, décadas antes de expressões como “capacidade funcional”, “avaliação multidimensional” e “cuidado centrado na pessoa” se tornarem correntes, que idade avançada não deveria ser confundida com impossibilidade terapêutica. Essa talvez seja uma das maiores mudanças conceituais promovidas pela Geriatria. O objetivo deixa de ser simplesmente identificar doenças e passa a incluir uma pergunta muito mais ampla:
O que essa pessoa ainda é capaz de fazer e o que podemos fazer para preservar ou recuperar essa capacidade?
E o Brasil começa a construir sua própria história.
A trajetória institucional brasileira ganha forma na década de 1950. Segundo a reconstrução histórica de Cintra e colaboradores, em 1954 foi instituído o Serviço Nacional de Assistência à Velhice, responsável por pesquisas, estudos e pela aproximação de profissionais interessados no tema. Em maio de 1957, ocorreu na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro um dos primeiros eventos científicos nacionais da área, organizado pelo professor Israel Bonomo. Poucos anos depois viria um marco decisivo.
Em 16 de maio de 1961, Roberto Segadas Viana, Abrahão Isaac Waisman e Paulo Celso Uchôa Cavalcanti fundaram a Sociedade Brasileira de Geriatria (SBG).
A história brasileira logo incorporaria uma característica fundamental: a multiprofissionalidade.
A partir de 1967, profissionais de outras áreas da saúde passaram a ser admitidos na Sociedade. Em 1968, a terapeuta ocupacional Maria Auxiliadora Cursino Ferrari e a assistente social Zally Queiroz foram as primeiras tituladas na área da Gerontologia.
Em 1969, a Sociedade Brasileira de Geriatria passou a denominar-se Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Naquele mesmo ano ocorreu o primeiro Congresso Nacional de Geriatria, atualmente Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, reunindo aproximadamente 300 participantes no Rio de Janeiro. Também em 1969 a Geriatria passou a contar com titulação de especialista por meio do vínculo estabelecido com a Associação Médica Brasileira.
Há algo simbólico nessa cronologia. O Brasil começava a institucionalizar a Geriatria e a Gerontologia justamente algumas décadas antes de experimentar uma das mais rápidas transformações de sua estrutura etária.
Da história à revolução demográfica
É aqui que passado e presente se encontram. Quando observamos as pirâmides populacionais brasileiras, percebemos que o país para o qual a Geriatria e a Gerontologia começaram a se organizar nas décadas de 1950 e 1960 é demograficamente muito diferente daquele que existe hoje.
No Censo de 2022, o Brasil contabilizou 32.113.490 pessoas com 60 anos ou mais, correspondendo a 15,8% da população. O contingente havia aumentado 56% em relação ao Censo de 2010. Entre as pessoas idosas, 55,7% eram mulheres. A própria forma da pirâmide populacional está se modificando. Entre 2010 e 2022, a participação das crianças de zero a 14 anos caiu de 24,1% para 19,8%, enquanto a parcela da população com 65 anos ou mais passou de 7,4% para 10,9%. A idade mediana brasileira aumentou de 29 para 35 anos em apenas 12 anos.
E essa transformação está longe de terminar.
As Projeções da População do IBGE, revisão 2024, indicam que 37,8% da população brasileira poderá ter 60 anos ou mais em 2070. Em outras palavras, caminhamos para um país no qual quase quatro em cada dez habitantes serão pessoas idosas.
A pergunta, portanto, mudou de escala. Não se trata mais apenas de saber se teremos especialistas capazes de cuidar de pessoas idosas. Precisamos perguntar se teremos uma sociedade organizada para a longevidade.
O paradoxo brasileiro: envelhecemos rapidamente, mas de maneira profundamente desigual
Existe ainda outra característica decisiva. O envelhecimento brasileiro não é homogêneo.
O Censo de 2022 mostrou diferenças expressivas no índice de envelhecimento: número de pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 crianças de zero a 14 anos. Enquanto a média brasileira era de 55,2, o índice alcançava 67,8 no Sudeste e 65,6 no Sul, contra 27,6 no Norte. Portanto, falar em “envelhecimento brasileiro” no singular pode esconder diferentes realidades. Envelhece-se em São Paulo, no interior amazônico, em uma grande capital nordestina ou em uma pequena cidade do Sul sob condições sociais, econômicas, ambientais e assistenciais muito distintas. A velhice também é resultado de uma história de vida.
Renda, educação, trabalho, alimentação, moradia, acesso à saúde, ambiente, relações sociais e oportunidades acumuladas ao longo de décadas interferem nas condições em que cada pessoa chega à idade avançada. Por isso, duas pessoas com 75 anos podem ter necessidades absolutamente distintas.
A própria OMS destaca que as mudanças associadas ao envelhecimento não são lineares nem uniformes e guardam apenas uma associação imperfeita com a idade cronológica.
Essa compreensão nos obriga a abandonar um dos equívocos mais persistentes relacionados à velhice: idade não é diagnóstico. O desafio agora é construir sistemas para a longevidade
O extraordinário crescimento da longevidade representa uma conquista civilizatória.
Mas viver mais não garante, automaticamente, viver melhor.
A expansão da população idosa, especialmente das pessoas com 80 anos ou mais, aumenta a importância de temas como capacidade funcional, multimorbidade, fragilidade, cognição, polifarmácia, reabilitação, atenção domiciliar, cuidados de longa duração e apoio às famílias e cuidadores.
É justamente nesse ponto que a história de Marjory Warren permanece surpreendentemente atual.
A pergunta fundamental não é apenas “quais doenças essa pessoa possui?”, mas também “como ela vive?”, “o que consegue fazer?”, “o que deseja preservar?” e “qual rede de cuidados permitirá que mantenha sua autonomia pelo maior tempo possível?”
A OMS tem defendido que a resposta ao envelhecimento populacional exige cuidado integrado e centrado na pessoa, atenção primária responsiva às necessidades das pessoas idosas, ambientes que favoreçam suas capacidades e acesso a cuidados de longa duração quando necessários.
Isso exige abandonar um sistema organizado exclusivamente em torno de episódios agudos. Uma sociedade longeva precisará de continuidade.
Atenção primária, hospital, reabilitação, atenção domiciliar, cuidados paliativos, serviços sociais e cuidados de longa duração precisam conversar entre si.
Para os hospitais, particularmente, essa mudança será profunda. Internar uma pessoa idosa sem avaliar funcionalidade, risco de delirium, fragilidade, medicamentos, mobilidade e condições para a alta significa ignorar parte substancial de suas necessidades. E alta hospitalar não pode representar ruptura do cuidado.
Quanto mais complexa e longeva for a população, mais importantes serão planejamento precoce da alta, transição de cuidados, comunicação entre serviços e articulação com familiares e cuidadores.
Da especialidade à competência de toda a saúde
A história da Geriatria e da Gerontologia produziu especialistas. A transição demográfica exige agora algo ainda maior: competência em envelhecimento distribuída por todo o sistema de saúde. Continuaremos necessitando de geriatras e especialistas em Gerontologia. Mas uma população em que a presença de pessoas idosas poderá se aproximar de 40% não poderá ser atendida exclusivamente por especialistas.
Enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos, assistentes sociais, dentistas, profissionais de educação física e gestores precisarão compreender os fundamentos do envelhecimento.
Isso inclui reconhecer que doença não é consequência inevitável da idade, que funcionalidade é um desfecho fundamental, que pessoas idosas constituem um grupo profundamente heterogêneo e que decisões assistenciais não devem ser baseadas apenas na idade cronológica.
A Gerontologia, portanto, deixa progressivamente de ser conhecimento periférico. Ela se torna competência estrutural para os profissionais de saúde do século XXI.
A pergunta que a história nos entrega
Da concepção hipocrática do corpo que perdia calor, passando por Galeno, Metchnikoff, Nascher e Marjory Warren, até a institucionalização brasileira iniciada nas décadas de 1950 e 1960, percorremos séculos tentando compreender a velhice. Agora enfrentamos uma situação inédita. Pela primeira vez, não estamos apenas estudando indivíduos que alcançam idades avançadas. Estamos aprendendo a organizar sociedades inteiras que envelhecem.
A ONU reconhece essa mudança estrutural em suas projeções mais recentes e aponta a necessidade de fortalecer sistemas de saúde e cuidados de longa duração, proteção social, aprendizagem ao longo da vida e enfrentamento da discriminação etária. O Brasil tem pouco tempo para fazer essa adaptação.
Em 2000, menos de um em cada dez brasileiros tinha 60 anos ou mais. Em 2070, poderão ser quase quatro em cada dez. Essa transformação não deve ser apresentada como uma catástrofe demográfica.
Ao contrário. Viver mais é uma das maiores conquistas da humanidade. O verdadeiro problema não é termos mais pessoas idosas.
O problema será chegarmos a uma sociedade longeva mantendo sistemas de saúde, cidades, relações de trabalho, políticas sociais e modelos de cuidado concebidos para uma população que já não existe.
Talvez essa seja a grande tarefa contemporânea da Geriatria e da Gerontologia: não apenas acrescentar anos à vida, mas contribuir para que uma sociedade que conquistou a longevidade consiga transformar esses anos adicionais em saúde, funcionalidade, autonomia, participação e dignidade.
E isso nos devolve à pergunta que deveria mobilizar profissionais, gestores e formuladores de políticas públicas: estamos preparados para viver em um país de pessoas idosas?
Referências
- Cintra MTG, Tieppo A, Lemos NFD, Speranza ACC. Retratos do Brasil: como estamos em 2025? – Geriatria e Gerontologia. Geriatr Gerontol Aging. 2025;19:e0000402. doi:10.53886/gga.e0000402_PT. Para este artigo, foram utilizadas exclusivamente as seções “Perspectiva histórica da geriatria e gerontologia mundial” e “Perspectiva histórica da geriatria e gerontologia brasileira”, conforme solicitado.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022: População por idade e sexo. Rio de Janeiro: IBGE. Dados utilizados também na apresentação fornecida.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação: 2000–2070. Revisão 2024.
- World Health Organization. Ageing and health. Atualizado em 1 out. 2025. (Organização Mundial da Saúde)
- United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2024. (Nações Unidas)