Um hospital nunca dorme. As luzes ficam acesas, os equipamentos seguem monitorando pacientes, a climatização não para — 24 horas por dia, todos os dias do ano. Essa operação ininterrupta é o que salva vidas. Mas ela também consome uma quantidade enorme de energia e água, gera toneladas de resíduos e deixa uma pegada ambiental que raramente entra na conversa sobre saúde.
É nesse ponto que um conceito nascido no mundo financeiro — o ESG (Environmental, Social and Governance: Ambiental, Social e Governança) — passa a fazer todo o sentido dentro de hospitais, clínicas, laboratórios e sistemas de saúde. A sigla surgiu em 2004, num relatório do Banco Mundial em parceria com a ONU e instituições financeiras de nove países, com o objetivo de mostrar que empresas mais atentas a fatores ambientais, sociais e de governança tendem a ser também mais sustentáveis no sentido mais amplo da palavra. Duas décadas depois, essa lógica chegou com força ao setor que, por definição, deveria estar mais preocupado do que qualquer outro com o bem-estar das pessoas e do planeta: a saúde.
Porque cuidar da vida, no século XXI, exige um olhar que vá além do tratamento das doenças.
A dimensão ambiental: cuidar também é gastar menos e melhor
Comecemos pelos números, porque eles ajudam a dimensionar o desafio. Globalmente, o setor de saúde é responsável por cerca de 4,4% de toda a emissão de CO2 do planeta, segundo levantamento da organização internacional Health Care Without Harm — se fosse um país, estaria entre os cinco que mais emitem gases de efeito estufa no mundo. No Brasil, estima-se que hospitais, clínicas e laboratórios produzam juntos mais de 250 mil toneladas de resíduos hospitalares por ano, e um único complexo hospitalar pode consumir mais de um milhão de litros de água por mês.
Diante desses números, pensar a dimensão ambiental da saúde deixa de ser um gesto simbólico e passa a ser uma questão de gestão — e, cada vez mais, uma questão estratégica. Grandes redes hospitalares brasileiras já colocaram metas concretas no papel. A Rede D'Or, maior operadora de hospitais privados da América Latina, definiu como meta reduzir em 36% suas emissões relativas de gases de efeito estufa até 2030 e zerar suas emissões líquidas de carbono até 2050, além de investir em eficiência energética e em um programa próprio de eficiência hídrica. A Hapvida, por sua vez, pretende que 100% de suas unidades operem com energia renovável até 2030 e mantém o programa "Vida que Recicla", que já transformou mais de mil toneladas de resíduos orgânicos em adubo, reduzindo o volume enviado a aterros sanitários. O Hospital Sírio-Libanês e o Hospital Israelita Albert Einstein seguem caminho semelhante: este último ergueu o Pavilhão Vicky e Joseph Safra, hoje o maior edifício do mundo com certificação ambiental LEED voltado à saúde — prova de que é possível unir sustentabilidade, tecnologia de ponta e qualidade assistencial em um único projeto.
Trocar iluminação por LED, migrar para o mercado livre de energia, instalar painéis solares, tratar e reutilizar água, segregar corretamente resíduos biológicos e químicos: nenhuma dessas medidas, isoladamente, resolve o problema ambiental da saúde. Mas, somadas, elas mostram que sustentabilidade hospitalar não é utopia — é gestão inteligente, com retorno financeiro mensurável e, sobretudo, coerência com a própria missão de cuidar.
A dimensão social: o pilar que mais pesa na saúde
Se no setor industrial o pilar ambiental costuma ser o mais discutido, análises do mercado financeiro brasileiro — como a da XP Investimentos sobre as principais empresas de saúde listadas em bolsa — apontam algo diferente para o setor de saúde: aqui, o pilar social é considerado o mais relevante dos três, seguido pela governança e, só depois, pelo ambiental. Faz sentido: o produto de uma empresa de saúde é, no fim das contas, o cuidado com pessoas.
Essa dimensão social nos lembra que o cuidado precisa ser humano, inclusivo e equitativo. Isso envolve ampliar o acesso aos serviços de saúde, garantir a privacidade e a dignidade do paciente, oferecer atendimento com custo acessível, e — algo frequentemente esquecido nesse debate — cuidar de quem cuida: valorizar, capacitar e proteger os profissionais que sustentam o sistema todos os dias, muitas vezes em condições de trabalho exigentes e emocionalmente desgastantes.
No Brasil, essa reflexão dialoga diretamente com os princípios do Sistema Único de Saúde — universalidade, integralidade e equidade —, que seguem sendo um dos maiores projetos de justiça social em saúde do mundo. E ela também aparece em iniciativas concretas do setor privado: a Rede D'Or, por exemplo, mantém parceria com o Instituto Proa para o desenvolvimento profissional de centenas de jovens de escolas públicas, e foi uma das maiores doadoras privadas do país durante a pandemia de Covid-19, com investimentos expressivos na construção de hospitais de campanha e no apoio direto ao SUS.
Mas é preciso honestidade também sobre os limites. Relatórios do setor financeiro apontam que a diversidade ainda é um ponto frágil nas grandes empresas de saúde brasileiras — conselhos de administração com baixíssima ou nenhuma presença feminina, por exemplo, ainda são a realidade em companhias que, paradoxalmente, lideram rankings de ESG. Isso é um lembrete importante: ESG não é um selo que se conquista de uma vez por todas. É um processo contínuo, cheio de contradições a serem enfrentadas.
A dimensão da governança: o pilar menos visível, mas decisivo
Se o "E" de ambiental é o mais fotogênico — painéis solares, prédios certificados, campanhas de reciclagem — o "G" de governança é, como já resumiu um executivo do setor, "o item menos sexy da sigla". E, ainda assim, é ele quem sustenta os outros dois. Governança envolve transparência na prestação de contas, políticas anticorrupção, processos padronizados de decisão, segurança do paciente, proteção de dados e privacidade, e mecanismos reais de responsabilização quando algo dá errado.
Na prática, isso aparece em coisas como a adesão de companhias de saúde ao Novo Mercado da B3 — o segmento que exige os mais altos padrões de governança corporativa do país —, a publicação de relatórios de sustentabilidade auditados por terceiros seguindo padrões internacionais como GRI e SASB, a resposta a questionários de organizações como o CDP (Carbon Disclosure Project), e a conquista de selos como o do Programa Brasileiro GHG Protocol para inventários de emissões. São mecanismos que, à primeira vista, parecem distantes do leito do paciente — mas que, no fundo, são o que garante que a promessa de cuidado feita por uma instituição de saúde tenha lastro real, e não seja apenas discurso.
Um novo modo de compreender o cuidado
Quando juntamos essas três dimensões, o ESG na saúde deixa de ser uma sigla do mundo financeiro e se torna outra coisa: um novo modo de compreender o cuidado. Um cuidado que reconhece que não existe saúde humana em um planeta doente. Que entende que sistemas de saúde fortes dependem de instituições éticas e bem geridas. Que sabe que cuidar de pacientes, sem cuidar de quem cuida, é uma equação incompleta. E que, por isso mesmo, coloca pacientes, profissionais e comunidades no centro de cada decisão — não como discurso institucional, mas como prática cotidiana, mensurável e auditável.
O futuro da saúde será cada vez mais interdisciplinar, sustentável e responsável. Isso não é uma tendência passageira nem um modismo corporativo: é uma resposta necessária a desafios que já batem à porta — das mudanças climáticas ao envelhecimento populacional, da pressão sobre os sistemas públicos de saúde à exigência crescente, por parte da sociedade, de mais transparência das instituições em que ela deposita sua confiança. Nesse caminho, profissionais de saúde, gestores, pesquisadores e instituições — grandes e pequenas, públicas e privadas — têm um papel indispensável na construção de um sistema mais justo, resiliente e comprometido com o bem-estar coletivo.
No fim das contas, cuidar da saúde é também cuidar do mundo em que vivemos.